2005/12/01

Noddy e Enid Blyton

"Histórias de uma criança com 56 anos", por Ana Filipe Vieira

""Não estou aqui só para escrever histórias, por mais que goste de o fazer. Estou aqui para promover a amizade, a bondade, a lealdade e todas as coisas que as crianças devem aprender." Quem o afirmou foi Enid Blyton, que sempre quis mostrar que era possível entreter as crianças sem recorrer à violência. A avaliar pela afluência de pequenos espectadores à Casa da Música, no Porto, e a que se espera entre hoje e dia 4 no espectáculo Noddy Live no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, pode dizer-se que "A Máquina", alcunha pela qual a autora era conhecida no universo literário, foi bem sucedida.

Mas o êxito de Noddy (expressão que, em inglês, é usada para denominar alguém que está sempre a dizer que sim com a cabeça) não é um fenómeno recente. Corria o ano de 1949 quando a escritora de livros infanto-juvenis mais popular de todos os tempos publicou a primeira aventura deste personagem. Noddy Goes to Toyland (na foto, um exemplar da obra), assim se intitulou o livro ilustrado pelo cartunista dinamarquês Harmsen van der Beek, teve êxito imediato.

Durante os 56 anos que se seguiram, o "filho de madeira", de Enid Blyton, foi o melhor amigo de gerações e gerações de crianças, que descobriram com entusiasmo cada vez maior as inocentes aventuras do pequeno boneco, sempre importunado pelos malvados duendes Sonso e Mafarrico e "salvo" pelos amigos Orelhas e Senhor Lei.

O período mais conturbado da vida de Noddy, baptizado em França (o primeiro país a traduzir os livros de Blyton) de "Oui-Oui", remonta à década de 60. Na sequência das críticas às obras da escritora britânica, acusada de banalidade, snobismo e xenofobia - os vilões da colecção de livros de aventuras Os Cinco são sempre estrangeiros - surgiu uma campanha anti-Noddy, que apontava o dedo ao famoso habitante da Cidade dos Brinquedos e ao seu amigo e mentor Orelhas, apelidando-os de "perversos". As razões prendiam-se com o facto de viverem juntos.

Foram essencialmente os bibliotecários de vários países que se manifestaram contra as publicações. Durante algum tempo, juntaram-se para protagonizarem cerimoniais onde queimavam os livros do Noddy, cuja venda acabou mesmo por ser proibida em Inglaterra, na Austrália e na Nova Zelândia. Nos anos 70, o personagem negro que integrava as histórias e que dava pelo nome de Gollywog foi retirado das narrativas - sob a acusação de fomentar o racismo - e as odisseias do Noddy e dos seus companheiros regressaram às estantes daqueles países.

Apesar do "incidente", a popularidade do boneco não foi perturbada e Enid Blyton resolveu não dar importância "a críticos com mais de 12 anos".

Desde então, Noddy e o seu mundo mágico não mais pararam de angariar novos adeptos em todo o mundo, justificando o nascimento e crescimento de uma infindável gama de produtos com e sobre o rapaz promotor da honestidade e da benevolência. Dos livros que apresentam desenhos para pintar aos autocolantes reutilizáveis, passando pelos brinquedos e pelos jogos (existem muitos mais do que quaisquer outros com um boneco inglês), pela banda desenhada, pela Sétima Arte (o primeiro e único filme, Noddy In Toyland, foi realizado em 1957 por Maclean Rogers), pelos DVD e CD, pelos toques e capas para os telemóveis, pelas peças de vestuário e pelos acessórios, muitos são os indícios de sucesso do menino idealizado por Enid Blyton.

Mas foram as séries de televisão, as mais recentes a três dimensões e quase todas destinadas a crianças dos três aos sete anos, que contribuíram para o incremento da fama do brinquedo. Quando os EUA aderiram a esta "febre", há apenas cerca de oito anos, foram encomendados os livros da escritora adaptados do inglês para o estilo de linguagem americana e acompanhados por uma produção televisiva da BBC Worldwide. Esta teve direito à maior verba que a cadeia britânica deu, até então, a um programa infantil.

E, para quem não sabe, fica a advertência em terras nacionais, o Noddy pode ser acompanhado através do canal 2:, que exibe, de segunda a sexta-feira, no espaço Zig Zag (19.45), Abram Alas para o Noddy. Esta série transporta para o pequeno ecrã as provações originais que a "mãe" Blyton criou para o herói de palmo e meio.

Produzida desde 2001 pela dupla Paul Sabella e Jonathan Dern, Make Way for Noddy (título original) recorre a efeitos visuais conseguidos através de imagens computorizadas, tornando as histórias ainda mais atractivas para as futuras gerações de crianças."


"A 'pop star' dos mais pequenos", por Ricardo Araújo Fonseca

"Quando Noddy entrou na sala 1 da Casa da Música, já o espectáculo decorria há alguns minutos, dir-se-ia estarmos perante uma pop star. Uma estridência absoluta de centenas de crianças, que esticavam os braços e o chamavam, com uma ansiedade que recordava aparições públicas de outras mega-estrelas da actualidade. Quanto ao boneco, saído do famoso táxi colorido que sempre o acompanha, abriu efusivamente os braços e gritou "Olááá!", sendo necessário proteger os ouvidos no momento seguinte, quando a jovem plateia devolveu em uníssono aquela saudação.


Este estrondo do primeiro espectáculo Noddy em Portugal (e o primeiro fora de Inglaterra, país natal da personagem) era já previsível, tendo em conta a romaria que se formou junto à Casa da Música, mal começaram a ser vendidos os bilhetes. Com uma fila que se esticou até à Rotunda da Boavista, rapidamente desapareceram os 15 mil ingressos disponíveis para os espectáculos que se realizaram entre 23 e 27 de Novembro, tendo a Câmara do Porto adquirido duas plateias completas para oferecer a oportunidade a crianças desfavorecidas. No total, estima-se que, entre os espectáculos de Porto e Lisboa (que se iniciam hoje, no Pavilhão Atlântico, com apresentações até 4 de Dezembro), sejam vendidos cerca de 65 mil bilhetes, sendo que o número de espectadores poderá ser superior, contabilizando-se as crianças com menos de três anos.

Preparado desde o início de 2005, o Noddy Live implicou a vinda de dois camiões ingleses, a que se juntaram mais dois portugueses, para transportarem toda a maquinaria necessária ao espectáculo. Também de Inglaterra vieram os actores que deram vida aos bonecos da Cidade dos Brinquedos, apesar das suas vozes pertencerem a conhecidos cantores portugueses. Miguel Ângelo, dos Delfins, empresta a voz ao Orelhas; Miguel Gameiro, dos Pólo Norte, ao Sr. Lei; Rita Reis, das Non Stop, à Dina; enquanto o Noddy recebe a voz de Ana Luís.

Riquíssimo em efeitos sonoros e de luz, o espectáculo apresenta-nos mais uma aventura de Noddy na Cidade dos Brinquedos. Há uma máquina do tempo, inventada pelo Sr. Faísca, que é roubada pelos duendes Sonso e Mafarrico, que com ela pretendem arruinar a "feira dos raios de sol", onde abundam as guloseimas e os presentes. Noddy vê-se envolvido na tramóia dos duendes e acaba por ser preso, sendo detido numa curiosa penitenciária em forma de capacete de polícia inglês (os Bobbys). Dividido nos seus sentimentos, o boneco interpela as crianças, pedindo-lhes conselhos sobre o que há-de fazer. E novamente ribombam as suas vozes, atropelando-se em sugestões e em palpites. Um dos trunfos do espectáculo é esta interacção permanente, incitando-se os miúdos a tomar partido e a participarem em coreografias nos momentos musicais. As canções do Noddy são inseridas com frequência, servindo de remate aos diversos quadros da peça. E o cenário vai-se alterando conforme o lugar da acção. Finalmente, após muitos conselhos e trapalhadas (o clima dentro do palco vai mudando ao sabor da vontade dos duendes, e ora chove, ora cai neve), Noddy resolve os seus dilemas e os habitantes da Cidade dos Brinquedos recuperam a máquina do tempo. Os duendes são perdoados e acabam também a festejar a "feira dos raios de sol". E, quando se despedem, há novamente histeria e mais uma vez nos lembramos de um concerto de música pop, com os miúdos desaustinados a pedirem encore.

O sucesso do espectáculo é compreensível pela celebridade do boneco e pela magnífica concepção do cenário, mas segundo Dan Colman, da Lemon (empresa que co-produziu o espectáculo com a Direcção de Educação e Investigação da Casa da Música), o grande segredo do Noddy é representar "valores universais" e apelar ao convívio e ao entendimento. "Os problemas resolvem-se através da comunicação, nunca através da violência, como noutros cartoons."
Feito de madeira, é amigo do seu amigo e adora conduzir um táxi vermelho e amarelo, que se faz ouvir com um sonoro "Pii! Pii!". Viaja muitas vezes de avião para visitar lugares distantes do País dos Brinquedos. Está sempre metido em sarilhos, especialmente porque os duendes Sonso e Mafarrico passam os dias a pregar-lhe partidas. Quando fica agitado, abana a cabeça, "accionando" o guizo que tem na ponta do seu chapéu azul."