2006/07/03

Entrevista a Fernando Savater no "Mil Folhas"

Pelo seu manifesto interesse didáctico, continuo a citar, do suplemento "Mil Folhas" inserido no Público de 1 de Julho, a entrevista de Fernando Savater:

"[...]
P. - Em "A Infância Recuperada" associava uma certa "decadência" da arte de narrar à decadência da memória, à perda do valor da memória nas sociedades contemporâneas. Trinta anos depois como vê esse problema?
R. - Há uma diferença muito importante, creio, entre a época em que escrevi "A Infância Recuperada" e a actual: o aparecimento da Internet, dos jogos de computador, das consolas de vídeo. Tudo isso apareceu como algo de novo e também como uma espécie de recuperação da imaginação ou de formas de imaginação diferentes. A minha mulher, que é muito afeiçoada aos videojogos, fez-me ver que normalmente se passa do romance ao jogo: "O Senhor dos Anéis", por exemplo. Disse-me ela: e se fosse ao contrário, e se pegássemos no esquema de um jogo de computador e o trasladássemos para um romance? Efectivamente, essa é uma forma de narrar diferente. Quando escrevi "A Infância Recuperada" predominava o tipo de romance sem argumento, quase sem narração, baseado na linguagem. Mas com o passar dos anos foi regressando o argumento, a história. Talvez, em certa medida, por causa desses videojogos, que são micro-histórias. A recuperação da história era o que eu procurava fazer nesse livro.

P. - Também fazia uma distinção entre a arte da narração e o romance burguês e realista...
R. - Porque a arte de narrar tem uma relação com a épica, com a lenda; pretende, de alguma maneira, contar histórias que não sejam costumes mas valores. A narração clássica, digamos, do que trata é de converter um valor, uma virtude, um perigo, em lenda. Em contrapartida, o romance burguês tradicional trata de descrever costumes e problemas entre os costumes da cidade: matrimónio, adultério, etc. Eu pretendia, evidentemente, recuperar a outra narração, a narração num sentido clássico. Creio que essa narração está hoje muito mais presente do que quando escrevi "A Infância Recuperada". Nessa altura isso era visto como algo muito infantil. Hoje, inclusivamente os autores mais respeitados literariamente voltam a recuperar o afã de contar histórias: Mario Vargas Llosa, Coetzee, Saramago contam histórias.

P. - Isso terá alguma coisa que ver com uma certa revalorização da oralidade, nomeadamente por causa do predomínio dos meios audiovisuais?
R. - O que se passa é que há também uma revalorização de dimensões, digamos, alternativas da realidade. Estamo-nos a acostumar a ver construções alternativas da realidade. Por exemplo, fotografias em que aparecem personagens que não estiveram presentes [na cena fotografada]. As histórias nos [jogos de] computadores misturam personagens de histórias diferentes numa história única. É algo que eu também faço no meu romance. Há cada vez mais como que uma espécie de disponibilidade das histórias: dispomos delas, não há uma separação rígida entre histórias de uma época e de outra, misturam-se personagens de diversos contextos num relato novo. Hoje, o romance popular é comum que seja um romance em que aparece Aristóteles resolvendo um caso policial...

P. - Não foi a isso que se chamou, a certa altura, pós-modernidade?
R. - Não sei se isso é a pós-modernidade, mas algo dela deve ter. Bem, isto é moderno no sentido em que há uma certa ironia no tratamento de todos os géneros literários. Não se pede ao romance histórico que não faça concessões à fantasia e que cada género tenha a sua própria norma. Há muito mais flexibilidade irónica no tratamento dos géneros.

P. - "O Grande Labirinto" é um romance de citações, alusões e homenagens. O que tem que ver também com a memória, nomeadamente com a sua memória de leitor...
R. - O grande labirinto é a memória. O grande labirinto é o tempo. De uma maneira ou de outra, vivemos nesse labirinto de referências, de histórias, em que se mistura a ficção, o que recordamos, a nossa vida, as vidas de outros que incorporámos à nossa. Esse é o labirinto em que nos movemos. Eu sempre quis que os meus livros não sejam um ponto de chegada mas um ponto de partida. Ou seja, que a partir de um livro meu se descubram outros livros diferentes. O melhor elogio que podem fazer a um livro meu é dizerem-me: "Li o teu livro e graças a ele descobri a obra de tal outro autor." Gostaria que, ao chegar ao fim de "O Grande Labirinto", o leitor ficasse com vontade de ler histórias de Sherlock Holmes ou de Oscar Wilde, ou de conhecer mais sobre a vida de Leonardo da Vinci... Ou seja, gostaria que o livro o remetesse a outras coisas.

P. - "O Grande Labirinto" não homenageia só os romances de aventuras (e argumento). Cita Shakespeare, Voltaire, Lao Zi, Jan Patocka, etc. É um resumo do seu cânone pessoal?
R. - Sim, todas as personagens pertencem ao meu cânone. Quer dizer: tenho por todas elas algum tipo de afecto especial. E também tentei que fossem de épocas contrastantes. Uma grande livraria, ou uma biblioteca, é como uma farmácia em que há remédios para todas as enfermidades, para a melancolia, para o aborrecimento... O que eu queria era assinalar essa variedade de remédios que há na literatura.

P. - O livro tem um certo ar compósito e mecânico, de acumulação e repetição de um mesmo pretexto narrativo: as "viagens" fantásticas que as personagens empreendem...
R. - Cada uma das viagens trata, minimamente, de um problema contemporâneo: o terrorismo, a ciência ao serviço da guerra, o fanatismo religioso, a violência sobre as mulheres, etc. Evidentemente, insisto, o que fiz foi pegar no mecanismo dos jogos de computador. Ou seja, não é um romance no sentido habitual do termo, mas sim um desses jogos multimédia convertido em romance.

P. - Escreveu este livro a pensar num público específico, juvenil?
R. - Um livro como este pode ter leituras diferentes. Eu pensei num público que tenha entre 12 e 14 ou 15 anos, um público adolescente. Mas é claro que, quando penso em adolescentes, penso em mim como adolescente. Não sei como são os adolescentes agora, talvez sejam muito diferentes. Eu penso no adolescente que fui, no tipo de livros de que poderia gostar o adolescente que eu fui. Mas creio que um leitor adulto pode ler outros níveis no livro, pode lê-lo com um pouco mais de humor ou com um pouco mais de busca do segundo sentido que pode haver no livro.

P. - A literatura "para crianças e jovens" costuma ser editada em colecções específicas. Tal não acontece com este livro. Isso pode trazer-lhe um público diferente?
R. - C. S. Lewis, o amigo de Tolkien que escreveu bastante sobre literatura juvenil, dizia que literatura juvenil é aquela de que também os jovens gostam. Quer dizer que um livro de literatura infantil não é um livro que só agrada às crianças, porque um livro que só agrade a uma criança não vale a pena nem para a criança. A literatura infantil é aquela que pode agradar também a uma criança. "A Ilha do Tesouro", de Stevenson, é um romance de que também os jovens podem gostar, mas que pode agradar a qualquer um de nós. Evidentemente que não pretendo comparar, mas gostaria que o meu livro, sendo pensado para que os jovens possam desfrutá-lo, não excluísse outro tipo de leitores.

P. - Os livros pensados para jovens costumam ter um problema: o didactismo...
R. - Eu não vejo nada de mal no didactismo. Quer dizer, o que é didáctico não tem de ser aborrecido. Sou daqueles que, quando liam os romances de Salgari, gostavam que ele descrevesse como eram os bosques e como eram as árvores, e que havia árvores cujos frutos se podiam comer... As crianças pequenas gostam, digamos, de saber que o lobo come o Capuchinho Vermelho, mas que, no final, o caçador resgata-a da barriga do lobo. A moral da história faz parte da própria história. Não creio que vá contra ela. A ideia de que a história não tem de transmitir nenhum valor creio que não corresponde àquilo que é a verdadeira narração.

P. - Defende, portanto, a possibilidade de a ficção poder ser educativa?
R. - Eu sinto-me, antes de mais, um educador, o que me preocupa mais é a educação. Gostaria de ser um grande artista, mas não creio que o seja. Escrevi livros que ajudam os educadores e que ajudam a educar de uma maneira que não seja aborrecida, fastidiosa, que não converta a educação numa tortura. Porque eu creio que a educação não é uma tortura, mas um dos momentos mais apaixonantes da vida. A educação é apaixonante e deveria apaixonar os que estão a educar-se. O que tento é escrever livros capazes de fazer os jovens apaixonarem-se pela educação.

P. - Mais do que um escritor, é então um professor que escreve livros?
R. - Em primeiro lugar sou um leitor. Se me pagassem para ler, eu não precisava de ser mais nada. Mas como não me pagam para ler, há que fazer algumas outras coisas. Considero-me um educador, fundamentalmente, um professor. Creio que tenho uma certa capacidade de relação com as crianças e com os adolescentes, talvez porque de algum modo continuo muito próximo deles. Um bom mestre tem de ser um pouco ignorante. Ou seja, os grandes sábios não são bons professores porque não compreendem a ignorância dos outros. Tenho companheiros muito sábios, de filosofia, que são muito maus professores, porque não entendem que os outros não compreendam as coisas, parece-lhes que há má vontade nos outros. Em contrapartida, os que são um pouco ignorantes são melhores professores porque compreendem a ignorância dos outros, põem-se facilmente no seu lugar e percebem o que é que eles não entendem.

P. - Parece, todavia, que as suas actividades como divulgador e ficcionista nem sempre são bem vistas pelos seus colegas educadores e académicos...
R. - Não podemos tentar viver como nos agrada e ao mesmo tempo comprazer os outros. Nunca me considerei um espectáculo para os outros e nem isso me preocupa demasiado.

P. - Fala-se muito, e há muito tempo, em educar para a leitura. É possível ensinar o prazer de ler?
R. - A leitura é, em primeiro lugar, um prazer e os prazeres não se impõem, comunicam-se por contágio. O prazer da leitura tem de ser contagiante. Mas hoje a leitura não é só leitura de livros. Quando eu tinha dez anos, não havia televisão, íamos ao cinema quando fazíamos anos ou uma vez por mês, e ou jogávamos futebol com os outros miúdos ou líamos. Eu não gostava de futebol. Hoje a literatura tem muitas alternativas: a Internet, os jogos de computador, os blogues, a música, etc. Também se lê na Internet. Para mim, ler é ler um livro e quero que o jornal que compro e leio de manhã seja em papel; lê-lo num ecrã não me dá o prazer que me dá um jornal de papel. Mas compreendo que talvez daqui a 20 anos toda a gente leia o jornal num ecrã. E talvez os livros também. Ou seja, o que é preciso é conservar vivo o prazer que a leitura encerra. Pensemos que muitos dos nossos antepassados, muito importantes intelectualmente, nunca leram um livro. Séneca nunca teve um livro, em sentido moderno, nas mãos. Aristóteles não saberia o que é um livro. No entanto, não são pessoas que não lessem e que não tivessem tido uma vinculação à literatura.

P. - No seu "Dicionário Filosófico", diz que "ler é já pensar". Não há uma sobrevalorização da leitura?
R. - Ler é pensar no sentido de que ver imagens não tem, obrigatoriamente, de estar relacionado com um pensamento articulado, enquanto ler sim. Ou seja, ler é, forçosamente, decifrar símbolos e toda a decifração de símbolos implica um complexo processo mental. Ver uma paisagem, inclusive um quadro de Rembrandt maravilhoso, podemos fazê-lo, digamos, quase com a mente em branco. Mas não podemos ler sem pensar. Claro que há obras artísticas que podem despertar em nós pensamentos mais sublimes do que a leitura de um livro trivial. Mas o pensamento pode ser trivial mas já é o início do pensamento superior.

P. - "O Grande Labirinto" pretende ser também uma parábola...
R. - Tem um pouco a intenção de parábola, mas não quis que tivesse uma lição excessivamente evidente. Porque me recordo sempre daquela opinião de Lord Chesterfield à saída de uma representação de "Otelo", de Shakespeare. Alguém lhe perguntou qual era o conteúdo, a lição da obra, e Lord Chesterfield disse: "As senhoras têm de ter muito cuidado com o que fazem com os seus lenços." Essa é uma das consequências que podemos tirar de "Otelo", mas não creio que seja a única...

P. - ... Uma parábola com moral ambígua.
R. - Quis que o final não fosse triunfal, sem mais. Os miúdos aprendem que têm de tentar lutar para resgatar os seus maiores, mas logo descobrem que talvez os adultos não queiram ser resgatados e que o que eles pensavam que era um grande perigo não é visto pelos outros como tal.

P. - Tendo lido "O Grande Labirinto", posso presumir que não tem visto o Campeonato Mundial de futebol...
R. - Não, não, não! Nunca fui um adepto do futebol...

P. - Prefere as corridas de cavalos...
R. - Sim, gosto muito de corridas de cavalos. E sempre consegui meter alguma história de cavalos nos meus livros anteriores. Nas corridas de cavalos são raros os nacionalismos, ninguém vai com bandeiras... Isso, para mim, é muito importante. Há uma relação mais individual, mais pessoal.

P. - Por falar em nacionalismos: como vê a evolução das autonomias "nacionais" em Espanha depois do novo "Estatuto" catalão?
R. - Os nacionalismos foram a grande desgraça da Espanha moderna. No século XIX todas as tentativas de fazer uma Espanha moderna, liberal e democrática tropeçaram nos nacionalismos. Isso passou-se no século XIX e no séxulo XX com a República e, desgraçadamente, passa-se hoje. O nacionalismo, que é o elemento mais reaccionário da política moderna, em Espanha uniu-se, estranhamente, à esquerda. A esquerda que sempre foi internacionalista! Hoje, coisas muito reaccionárias, como o estatuto catalão ou o que se prepara no País Basco, são vistas como avanços e como progressos esquerdistas, o que me parece absurdo. Já se viu que o estatuto catalão é um problema dos políticos. Após dois anos de lutas e confrontos, chega o referendo e mais de metade da população não vota porque não lhe interessa nada esse problema. Ou seja, é um falso problema. Oxalá não cause mais danos.

P. - Mas as reivindicações autonómicas passam também por problemas de ordem cultural e, especialmente, de ordem linguística...
R. - Que se respeitem as culturas mas não se inventem. Uma coisa é respeitar as línguas, outra coisa é haver perseguição de uma língua como o castelhano. São os falantes que têm direito à sua língua, não as línguas que têm direito a procurar falantes. Na Catalunha e no País Basco considera-se que quem tem direitos é a língua: a língua tem direito a ser falada. Eu creio que são os falantes que têm direito a falar a sua língua. Se os falantes decidem falar outra, têm o direito de falar outra. O nacionalismo crê que os direitos têm-nos o território, a língua, tudo menos as pessoas. Hoje, no País Basco ou na Catalunha, uma pessoa normal não pode educar os seus filhos na língua que preferir, tem de educá-los obrigatoriamente na língua do território, o que é um retrocesso das liberdades.

P. - O seu "Dicionário Filosófico" encerrava com uma citação de Peter Handke. O que pensa das recentes e polémicas censuras sobre ele exercidas?
R. - Há muitos autores que podemos admirar literariamente sem compartilharmos, em absoluto, os seus ideais políticos. É o caso de Céline. Mas por exemplo, e já que falamos de Handke e das suas simpatias por Milosevic: Harold Pinter, que acaba de ganhar o Prémio Nobel, tem também simpatias por Milosevic e teve simpatias por Saddam Hussein, que expressou várias vezes, e no entanto ninguém lhe tirou o Nobel; Saramago tem simpatias por Fidel Castro, que tão-pouco é um modelo de liberdades públicas. O que me parece injusto é que, no caso de Handke, retiraram uma obra de teatro que não tinha nada que ver com estes problemas. Para castigá-lo. Que sabemos nós sobre o que pensava Shakespeare da política, por exemplo? Isso não nos impede de lermos e vermos as suas obras com entusiasmo."

Entrevista a Fernando Savater no "Mil Folhas"

Pelo seu manifesto interesse didáctico, continuo a citar, do suplemento "Mil Folhas" inserido no Público de 1 de Julho, a entrevista de Fernando Savater:

"[...]
P. - Em "A Infância Recuperada" associava uma certa "decadência" da arte de narrar à decadência da memória, à perda do valor da memória nas sociedades contemporâneas. Trinta anos depois como vê esse problema?
R. - Há uma diferença muito importante, creio, entre a época em que escrevi "A Infância Recuperada" e a actual: o aparecimento da Internet, dos jogos de computador, das consolas de vídeo. Tudo isso apareceu como algo de novo e também como uma espécie de recuperação da imaginação ou de formas de imaginação diferentes. A minha mulher, que é muito afeiçoada aos videojogos, fez-me ver que normalmente se passa do romance ao jogo: "O Senhor dos Anéis", por exemplo. Disse-me ela: e se fosse ao contrário, e se pegássemos no esquema de um jogo de computador e o trasladássemos para um romance? Efectivamente, essa é uma forma de narrar diferente. Quando escrevi "A Infância Recuperada" predominava o tipo de romance sem argumento, quase sem narração, baseado na linguagem. Mas com o passar dos anos foi regressando o argumento, a história. Talvez, em certa medida, por causa desses videojogos, que são micro-histórias. A recuperação da história era o que eu procurava fazer nesse livro.

P. - Também fazia uma distinção entre a arte da narração e o romance burguês e realista...
R. - Porque a arte de narrar tem uma relação com a épica, com a lenda; pretende, de alguma maneira, contar histórias que não sejam costumes mas valores. A narração clássica, digamos, do que trata é de converter um valor, uma virtude, um perigo, em lenda. Em contrapartida, o romance burguês tradicional trata de descrever costumes e problemas entre os costumes da cidade: matrimónio, adultério, etc. Eu pretendia, evidentemente, recuperar a outra narração, a narração num sentido clássico. Creio que essa narração está hoje muito mais presente do que quando escrevi "A Infância Recuperada". Nessa altura isso era visto como algo muito infantil. Hoje, inclusivamente os autores mais respeitados literariamente voltam a recuperar o afã de contar histórias: Mario Vargas Llosa, Coetzee, Saramago contam histórias.

P. - Isso terá alguma coisa que ver com uma certa revalorização da oralidade, nomeadamente por causa do predomínio dos meios audiovisuais?
R. - O que se passa é que há também uma revalorização de dimensões, digamos, alternativas da realidade. Estamo-nos a acostumar a ver construções alternativas da realidade. Por exemplo, fotografias em que aparecem personagens que não estiveram presentes [na cena fotografada]. As histórias nos [jogos de] computadores misturam personagens de histórias diferentes numa história única. É algo que eu também faço no meu romance. Há cada vez mais como que uma espécie de disponibilidade das histórias: dispomos delas, não há uma separação rígida entre histórias de uma época e de outra, misturam-se personagens de diversos contextos num relato novo. Hoje, o romance popular é comum que seja um romance em que aparece Aristóteles resolvendo um caso policial...

P. - Não foi a isso que se chamou, a certa altura, pós-modernidade?
R. - Não sei se isso é a pós-modernidade, mas algo dela deve ter. Bem, isto é moderno no sentido em que há uma certa ironia no tratamento de todos os géneros literários. Não se pede ao romance histórico que não faça concessões à fantasia e que cada género tenha a sua própria norma. Há muito mais flexibilidade irónica no tratamento dos géneros.

P. - "O Grande Labirinto" é um romance de citações, alusões e homenagens. O que tem que ver também com a memória, nomeadamente com a sua memória de leitor...
R. - O grande labirinto é a memória. O grande labirinto é o tempo. De uma maneira ou de outra, vivemos nesse labirinto de referências, de histórias, em que se mistura a ficção, o que recordamos, a nossa vida, as vidas de outros que incorporámos à nossa. Esse é o labirinto em que nos movemos. Eu sempre quis que os meus livros não sejam um ponto de chegada mas um ponto de partida. Ou seja, que a partir de um livro meu se descubram outros livros diferentes. O melhor elogio que podem fazer a um livro meu é dizerem-me: "Li o teu livro e graças a ele descobri a obra de tal outro autor." Gostaria que, ao chegar ao fim de "O Grande Labirinto", o leitor ficasse com vontade de ler histórias de Sherlock Holmes ou de Oscar Wilde, ou de conhecer mais sobre a vida de Leonardo da Vinci... Ou seja, gostaria que o livro o remetesse a outras coisas.

P. - "O Grande Labirinto" não homenageia só os romances de aventuras (e argumento). Cita Shakespeare, Voltaire, Lao Zi, Jan Patocka, etc. É um resumo do seu cânone pessoal?
R. - Sim, todas as personagens pertencem ao meu cânone. Quer dizer: tenho por todas elas algum tipo de afecto especial. E também tentei que fossem de épocas contrastantes. Uma grande livraria, ou uma biblioteca, é como uma farmácia em que há remédios para todas as enfermidades, para a melancolia, para o aborrecimento... O que eu queria era assinalar essa variedade de remédios que há na literatura.

P. - O livro tem um certo ar compósito e mecânico, de acumulação e repetição de um mesmo pretexto narrativo: as "viagens" fantásticas que as personagens empreendem...
R. - Cada uma das viagens trata, minimamente, de um problema contemporâneo: o terrorismo, a ciência ao serviço da guerra, o fanatismo religioso, a violência sobre as mulheres, etc. Evidentemente, insisto, o que fiz foi pegar no mecanismo dos jogos de computador. Ou seja, não é um romance no sentido habitual do termo, mas sim um desses jogos multimédia convertido em romance.

P. - Escreveu este livro a pensar num público específico, juvenil?
R. - Um livro como este pode ter leituras diferentes. Eu pensei num público que tenha entre 12 e 14 ou 15 anos, um público adolescente. Mas é claro que, quando penso em adolescentes, penso em mim como adolescente. Não sei como são os adolescentes agora, talvez sejam muito diferentes. Eu penso no adolescente que fui, no tipo de livros de que poderia gostar o adolescente que eu fui. Mas creio que um leitor adulto pode ler outros níveis no livro, pode lê-lo com um pouco mais de humor ou com um pouco mais de busca do segundo sentido que pode haver no livro.

P. - A literatura "para crianças e jovens" costuma ser editada em colecções específicas. Tal não acontece com este livro. Isso pode trazer-lhe um público diferente?
R. - C. S. Lewis, o amigo de Tolkien que escreveu bastante sobre literatura juvenil, dizia que literatura juvenil é aquela de que também os jovens gostam. Quer dizer que um livro de literatura infantil não é um livro que só agrada às crianças, porque um livro que só agrade a uma criança não vale a pena nem para a criança. A literatura infantil é aquela que pode agradar também a uma criança. "A Ilha do Tesouro", de Stevenson, é um romance de que também os jovens podem gostar, mas que pode agradar a qualquer um de nós. Evidentemente que não pretendo comparar, mas gostaria que o meu livro, sendo pensado para que os jovens possam desfrutá-lo, não excluísse outro tipo de leitores.

P. - Os livros pensados para jovens costumam ter um problema: o didactismo...
R. - Eu não vejo nada de mal no didactismo. Quer dizer, o que é didáctico não tem de ser aborrecido. Sou daqueles que, quando liam os romances de Salgari, gostavam que ele descrevesse como eram os bosques e como eram as árvores, e que havia árvores cujos frutos se podiam comer... As crianças pequenas gostam, digamos, de saber que o lobo come o Capuchinho Vermelho, mas que, no final, o caçador resgata-a da barriga do lobo. A moral da história faz parte da própria história. Não creio que vá contra ela. A ideia de que a história não tem de transmitir nenhum valor creio que não corresponde àquilo que é a verdadeira narração.

P. - Defende, portanto, a possibilidade de a ficção poder ser educativa?
R. - Eu sinto-me, antes de mais, um educador, o que me preocupa mais é a educação. Gostaria de ser um grande artista, mas não creio que o seja. Escrevi livros que ajudam os educadores e que ajudam a educar de uma maneira que não seja aborrecida, fastidiosa, que não converta a educação numa tortura. Porque eu creio que a educação não é uma tortura, mas um dos momentos mais apaixonantes da vida. A educação é apaixonante e deveria apaixonar os que estão a educar-se. O que tento é escrever livros capazes de fazer os jovens apaixonarem-se pela educação.

P. - Mais do que um escritor, é então um professor que escreve livros?
R. - Em primeiro lugar sou um leitor. Se me pagassem para ler, eu não precisava de ser mais nada. Mas como não me pagam para ler, há que fazer algumas outras coisas. Considero-me um educador, fundamentalmente, um professor. Creio que tenho uma certa capacidade de relação com as crianças e com os adolescentes, talvez porque de algum modo continuo muito próximo deles. Um bom mestre tem de ser um pouco ignorante. Ou seja, os grandes sábios não são bons professores porque não compreendem a ignorância dos outros. Tenho companheiros muito sábios, de filosofia, que são muito maus professores, porque não entendem que os outros não compreendam as coisas, parece-lhes que há má vontade nos outros. Em contrapartida, os que são um pouco ignorantes são melhores professores porque compreendem a ignorância dos outros, põem-se facilmente no seu lugar e percebem o que é que eles não entendem.

P. - Parece, todavia, que as suas actividades como divulgador e ficcionista nem sempre são bem vistas pelos seus colegas educadores e académicos...
R. - Não podemos tentar viver como nos agrada e ao mesmo tempo comprazer os outros. Nunca me considerei um espectáculo para os outros e nem isso me preocupa demasiado.

P. - Fala-se muito, e há muito tempo, em educar para a leitura. É possível ensinar o prazer de ler?
R. - A leitura é, em primeiro lugar, um prazer e os prazeres não se impõem, comunicam-se por contágio. O prazer da leitura tem de ser contagiante. Mas hoje a leitura não é só leitura de livros. Quando eu tinha dez anos, não havia televisão, íamos ao cinema quando fazíamos anos ou uma vez por mês, e ou jogávamos futebol com os outros miúdos ou líamos. Eu não gostava de futebol. Hoje a literatura tem muitas alternativas: a Internet, os jogos de computador, os blogues, a música, etc. Também se lê na Internet. Para mim, ler é ler um livro e quero que o jornal que compro e leio de manhã seja em papel; lê-lo num ecrã não me dá o prazer que me dá um jornal de papel. Mas compreendo que talvez daqui a 20 anos toda a gente leia o jornal num ecrã. E talvez os livros também. Ou seja, o que é preciso é conservar vivo o prazer que a leitura encerra. Pensemos que muitos dos nossos antepassados, muito importantes intelectualmente, nunca leram um livro. Séneca nunca teve um livro, em sentido moderno, nas mãos. Aristóteles não saberia o que é um livro. No entanto, não são pessoas que não lessem e que não tivessem tido uma vinculação à literatura.

P. - No seu "Dicionário Filosófico", diz que "ler é já pensar". Não há uma sobrevalorização da leitura?
R. - Ler é pensar no sentido de que ver imagens não tem, obrigatoriamente, de estar relacionado com um pensamento articulado, enquanto ler sim. Ou seja, ler é, forçosamente, decifrar símbolos e toda a decifração de símbolos implica um complexo processo mental. Ver uma paisagem, inclusive um quadro de Rembrandt maravilhoso, podemos fazê-lo, digamos, quase com a mente em branco. Mas não podemos ler sem pensar. Claro que há obras artísticas que podem despertar em nós pensamentos mais sublimes do que a leitura de um livro trivial. Mas o pensamento pode ser trivial mas já é o início do pensamento superior.

P. - "O Grande Labirinto" pretende ser também uma parábola...
R. - Tem um pouco a intenção de parábola, mas não quis que tivesse uma lição excessivamente evidente. Porque me recordo sempre daquela opinião de Lord Chesterfield à saída de uma representação de "Otelo", de Shakespeare. Alguém lhe perguntou qual era o conteúdo, a lição da obra, e Lord Chesterfield disse: "As senhoras têm de ter muito cuidado com o que fazem com os seus lenços." Essa é uma das consequências que podemos tirar de "Otelo", mas não creio que seja a única...

P. - ... Uma parábola com moral ambígua.
R. - Quis que o final não fosse triunfal, sem mais. Os miúdos aprendem que têm de tentar lutar para resgatar os seus maiores, mas logo descobrem que talvez os adultos não queiram ser resgatados e que o que eles pensavam que era um grande perigo não é visto pelos outros como tal.

P. - Tendo lido "O Grande Labirinto", posso presumir que não tem visto o Campeonato Mundial de futebol...
R. - Não, não, não! Nunca fui um adepto do futebol...

P. - Prefere as corridas de cavalos...
R. - Sim, gosto muito de corridas de cavalos. E sempre consegui meter alguma história de cavalos nos meus livros anteriores. Nas corridas de cavalos são raros os nacionalismos, ninguém vai com bandeiras... Isso, para mim, é muito importante. Há uma relação mais individual, mais pessoal.

P. - Por falar em nacionalismos: como vê a evolução das autonomias "nacionais" em Espanha depois do novo "Estatuto" catalão?
R. - Os nacionalismos foram a grande desgraça da Espanha moderna. No século XIX todas as tentativas de fazer uma Espanha moderna, liberal e democrática tropeçaram nos nacionalismos. Isso passou-se no século XIX e no séxulo XX com a República e, desgraçadamente, passa-se hoje. O nacionalismo, que é o elemento mais reaccionário da política moderna, em Espanha uniu-se, estranhamente, à esquerda. A esquerda que sempre foi internacionalista! Hoje, coisas muito reaccionárias, como o estatuto catalão ou o que se prepara no País Basco, são vistas como avanços e como progressos esquerdistas, o que me parece absurdo. Já se viu que o estatuto catalão é um problema dos políticos. Após dois anos de lutas e confrontos, chega o referendo e mais de metade da população não vota porque não lhe interessa nada esse problema. Ou seja, é um falso problema. Oxalá não cause mais danos.

P. - Mas as reivindicações autonómicas passam também por problemas de ordem cultural e, especialmente, de ordem linguística...
R. - Que se respeitem as culturas mas não se inventem. Uma coisa é respeitar as línguas, outra coisa é haver perseguição de uma língua como o castelhano. São os falantes que têm direito à sua língua, não as línguas que têm direito a procurar falantes. Na Catalunha e no País Basco considera-se que quem tem direitos é a língua: a língua tem direito a ser falada. Eu creio que são os falantes que têm direito a falar a sua língua. Se os falantes decidem falar outra, têm o direito de falar outra. O nacionalismo crê que os direitos têm-nos o território, a língua, tudo menos as pessoas. Hoje, no País Basco ou na Catalunha, uma pessoa normal não pode educar os seus filhos na língua que preferir, tem de educá-los obrigatoriamente na língua do território, o que é um retrocesso das liberdades.

P. - O seu "Dicionário Filosófico" encerrava com uma citação de Peter Handke. O que pensa das recentes e polémicas censuras sobre ele exercidas?
R. - Há muitos autores que podemos admirar literariamente sem compartilharmos, em absoluto, os seus ideais políticos. É o caso de Céline. Mas por exemplo, e já que falamos de Handke e das suas simpatias por Milosevic: Harold Pinter, que acaba de ganhar o Prémio Nobel, tem também simpatias por Milosevic e teve simpatias por Saddam Hussein, que expressou várias vezes, e no entanto ninguém lhe tirou o Nobel; Saramago tem simpatias por Fidel Castro, que tão-pouco é um modelo de liberdades públicas. O que me parece injusto é que, no caso de Handke, retiraram uma obra de teatro que não tinha nada que ver com estes problemas. Para castigá-lo. Que sabemos nós sobre o que pensava Shakespeare da política, por exemplo? Isso não nos impede de lermos e vermos as suas obras com entusiasmo."

2006/06/26

Novo Livro de José Afonso Furtado

Continuação da citação do suplemento Mil Folhas, parte integrante do Público de 24 de Junho de 2006: "O livro, uma edição muito bonita, sóbria, com um grafismo e tamanho ideal, foi publicado pela editora brasileira Escritório do Livro com o apoio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. A obra, apenas disponível no Brasil, é erudita sem deixar de ser didáctica, levanta vários problemas ligados ao livro, à evolução da escrita e às práticas sociais e mentais de leitura, lê-se numa horas, e, como o autor é exaustivo nas fontes e referências, quem quiser aprofundar ainda mais os temas ali abordados tem o trabalho de casa feito.
"O Papel e o Pixel" é uma súmula do que o autor já publicou sobre este assunto, agora mais actualizado, pois as novas tecnologias estão em constante mudança. Os capítulos são "Livro eletrônico e edição eletrônica: tentativa de definição", "Versões eletrônicas e reconceitualização do livro no mundo digital", "Mediação tecnológica e remediação" e "Técnicas, textos, usos. Questões cognitivas e práticas sociais" e ainda uma introdução e uma conclusão.
Numa nota logo no início, o autor diz-nos que o volume tem por base dois textos, um deles publicado na revista de literatura "Românica" em 2004 e um outro que fez para o projecto Ciberdifusão, nunca publicado. Mas acrescenta que "[a obra] não resulta, contudo, da sua mera reunião, pois foram ambos revistos e adaptados para publicação como volume coerente e autônomo, que foi ainda objeto de significativa ampliação com material até agora inédito".
Estamos num "campo de turbulência", escreve Furtado na pág. 30, "em que a geração de publicações que exploram as capacidades específicas do universo digital, o crescimento exponencial da Web e a vulgarização do trabalho em rede e em ambientes hipertextuais questionam algumas noções atribuíveis aos textos da cultura do impresso, como a sua fixidez, linearidade, sequencialidade, autoridade ou finitude, provocando transformações nas clássicas definições de autor, leitor e as suas relações mútuas, bem como dando lugar a novas formas de ler e de escrever". É este o ponto de partida para a reflexão que nos pode levar a questionar se, por exemplo, o livro é associado à literatura por esta ter sido "a nossa mestra de leitura" (a literatura ensinou-nos a ler ficção) e se será por termos apreendido a ler através de romances que acabamos por dar a primazia à leitura do livro sob o signo do contínuo. Ou que nos leva a olhar para o futuro, por exemplo, através das opiniões de Robert S. Boynton, para quem "inovações como iTunes da Apple poderão ser consideradas como o primeiro passo para uma sociedade em que muita da atividade cultural que hoje temos como garantida - consultar uma enciclopédia numa biblioteca, vender um manual de geometria a um amigo ou copiar uma canção para um familiar - será encaminhada para um sistema de micropagamentos como contrapartida dos direitos de peças cada vez menores da nossa cultura" (pág. 152). Ou nos leva a acreditar nas previsões da consultora jurídica da American Library Association, para a qual, ""mais cedo ou mais tarde, vamos ter que calcular o preço de uma frase" e que, quando aí chegarmos, "já não se vai poder voltar atrás"" (pág. 153).
Com "O Papel e o Pixel", José Afonso Furtado vem pôr ordem na desordem da leitura.
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O Papel e o Pixel
Do Impresso ao Digital: Continuidades e Transformações
Autor: José Afonso Furtado
Prefácio: Aníbal Bragança
Editor: Escritório do Livro, Brasil
205 págs. ".

José Miguel Ribeiro homenageado no Porto

Continuação da citação do Público de 26 de Junho de 2006: "José Miguel Ribeiro nasceu na Amadora, em 1966. Formou-se em Pintura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, em 1992. Nesse ano, participou na Bienal de Jovens Criadores do Mediterrâneo, em Valência, como ilustrador, actividade a que se tem dedicado com regularidade, em paralelo com a animação. Nesta arte, iniciou-se, nos primeiros anos da década de 1990, em cursos na Gulbenkian (Lisboa) e num estágio franco-português nos estúdios Filmógrafo (Porto) e Lazennec (Bretanha). É desse tempo o episódio sobre o triplo salto que fez para a série Jogos Olímpicos. E trabalhou na série da RTP O Jardim da Celeste. Mas foi em 1999 que concretizou o seu primeiro projecto ambicioso de animação de volumes, com A Suspeita. Daí para cá, continuou a trabalhar em ilustração, realizou a série Coisas Lá de Casa, e a curta Abraço do Vento, dedicada à música de Carlos Paredes. Agora sonha com Cabo Verde.
José Miguel Ribeiro vem desde há meia dúzia de anos a tentar libertar-se do epíteto "o "gajo" que fez A Suspeita". Mas tem sido difícil. Primeiro, porque esta curta-metragem de animação de volumes garantiu já um lugar na história da animação portuguesa como o filme que acumulou mais prémios, nacionais e internacionais - o mais importante dos quais foi o Cartoon d"Or (o "Óscar" da animação europeia), conquistado em 2000, na Suécia. Depois, porque a condições de trabalho na animação no nosso país não permitem uma actividade segura e continuada, mesmo para os melhores.
A homenagem que a Casa da Animação lhe está a prestar, no Porto, com uma exposição (Desenhar o que não se vê), duas mostras de filmes (a primeira, exibida na quinta-feira, reuniu a sua obra; a segunda, a 22 de Julho, vai desvendar as suas escolhas) e um workshop, pode permitir-lhe dar o salto.
Actualmente com 40 anos, José Miguel Ribeiro vê essa homenagem como a oportunidade para fazer "o ponto da situação" da sua carreira. "Isto é uma vida muito instável, onde a maior dificuldade é a ausência de condições para um trabalho continuado", desabafa o realizador. "Estou numa fase em que tenho de tomar decisões: ou continuar com as curtas-metragens, mesmo optando por projectos mais simples e mais baratos, ou arranjar um projecto altamente comercial". É o dilema habitual de quem trabalha em animação no nosso país.
Quando fez A Suspeita, numa altura em que a animação portuguesa manifestava alguma vitalidade, Ribeiro acreditou que a situação poderia consolidar-se ou mesmo melhorar. "O que sinto hoje é um grande desequilíbrio: há poucos trabalhos de grande qualidade, mas muitos que não ultrapassam a mediania". E o prémio agora conquistado por Regina Pessoa no Festival de Annecy (França), com História Trágica com Final Feliz, é "uma rara excepção que confirma a regra", nota.
Na sua carreira, Ribeiro acrescentou, entretanto, ao êxito de A Suspeita as experiência de realização de uma série, As Coisas Lá de Casa (2001-03), e um pequeno filme dedicado à música de Carlos Paredes, O Abraço do Vento (para a peça Canto de Trabalho). Trabalhos que tem feito a partir de Montemor-o-Novo, onde actualmente vive.

"A ilustração é o meu sustento"
Mas, no nosso país, um realizador de cinema de animação tem vida difícil. A compensação, Ribeiro tem-na encontrado na direcção de workshops e, principalmente, na ilustração. "É uma coisa que gosto de fazer, mas é também o meu sustento", confessa o realizador-desenhador, que tem trabalhado para as editoras Caminho (livros de Alice Vieira e Ana Saldanha) e Âmbar (principalmente livros de Maria Teresa dos Santos Silva), mas também para revistas como a Elle ou a Cosmopolitan.
O desenho é, aliás, uma pulsão antiga na sua vida. Desde os tempos de estudante de Belas-Artes que José Miguel Ribeiro ocupa os tempos livres (e mortos) desenhando repetidamente nos pequenos cadernos sem linhas (da papelaria Fernandes). Acumulou já meia dúzia daquilo a que chama os seus "diários gráficos". "São cadernos que andam sempre comigo, e onde desenho e anoto coisas, sempre que estou à espera de alguma coisa, ou ando em viagem: desenho o que está à minha frente ou o que me vem à ideia", diz. Esses "diários gráficos" constituem, aliás, o fio condutor da exposição patente na Casa da Animação, fazendo a ligação entre os bonecos, os desenhos e os story-boards dos seus filmes.
O projecto em que Ribeiro trabalha actualmente é uma nova curta-metragem, Passeio de Domingo, novamente com argumento de Virgílio Almeida e produção de Luís da Matta Almeida (os mesmos de A Suspeita). Para o desenvolvimento do projecto, Ribeiro teve já subsídio do ICAM, mas está ainda à espera de conseguir montar uma co-produção com a Holanda e a Bélgica, de que dependerá a concretização do filme. Entretanto, viveu uma experiência de dois meses em Cabo Verde - "fui lá porque senti a necessidade de parar, de reflectir sobre o futuro", - e veio de lá com mais uma série de cadernos cheios de desenhos. Não tem ainda nenhum projecto definido, mas Ribeiro diz que gostaria de "poder contar uma história com mais tempo; dar respiração às personagens...". Talvez uma longa-metragem, ou qualquer outra coisa que preencha o seu desejo de passar do desenho à animação. E que, definitivamente, lhe permita deixar de ser visto apenas como "o "gajo" que fez A Suspeita". ".

2006/06/14

VGM, "Os livros, pois"

Crónica no Diário de Notícias de 14 de Junho de 2006:
"Os livros, pois. Levar a população, sobretudo os jovens, a ler mais. Tornar obrigatória a leitura de um conjunto de livros para cada ano escolar. Em França, os miúdos do secundário são obrigados a ler sete a oito livros por ano, para além das matérias que integram a disciplina de Francês. E têm de falar deles nas aulas... E, como nota José Augusto Cardoso Bernardes, no seu recente e importante livro Como Abordar… a Literatura no Ensino Secundário/ /Outros Caminhos (ASA, 2006), a que tenciono voltar nesta coluna, "a Literatura é hoje menos prezada nas escolas portuguesas do que nas suas congéneres espanhola (…), francesa, inglesa ou italiana, para citar apenas os exemplos onde a presença no cânone escolar é mais forte".
A grande questão todavia desdobra-se em duas: quais os livros a indicar para leitura obrigatória em cada ano escolar? E como torná- -los disponíveis rapidamente, em termos de qualidade editorial mínima, cobertura do território e acessibilidade de preço?
O primeiro aspecto carece de uma reflexão aprofundada e evolutiva. Isabel Alçada e Teresa Calçada abordam-no em entrevista ao último JL/Educação. Quanto ao segundo, uma solução consistirá em pesquisar a oferta editorial corrente no mercado e organizar os programas de leitura em função dela. Outra, em deixar as coisas a cargo dos editores e não apenas dos de livros escolares. A terceira, possivelmente mais eficiente e mais barata, consistiria em o Ministério da Educação convencer os grandes jornais e as editoras de livros para quiosque a publicarem séries completas desses livros em formato de bolso, com grande tiragem, promoção e distribuição garantidas e preço muito baixo. Devidamente negociado e calibrado, um programa deste tipo poderia dar excelentes frutos.
Mas, numa altura em que se deplora o papel negativo da televisão no tocante à regressão alarmante dos hábitos de leitura, fará sentido falar do Plano Nacional de Leitura sem considerar o papel que a televisão e a rádio (tanto a de grande audiência como as rádios locais) podem e devem ter? Se há um serviço público de televisão, neste aspecto deveria haver uma ditadura implacável do Ministério da Educação sobre esse serviço público em todos os canais dependentes do Estado. Bastava que estes consagrassem à leitura, em horário nobre, a quinquagésima parte do tempo que dedicam ao futebol para se alterar o panorama desolador que enfrentamos... Eduardo Prado Coelho acaba de escrever um artigo notável sobre o que há de enjoativo e obsceno na overdose de futebol que nos é servida como pão nosso de cada dia. E, quanto aos canais privados, seria possível o Estado incluir como contrapartidas contratuais da concessão princípios que garantissem a contemplação devida dos interesses em questão.
Sem desvalorizar, muito pelo contrário, o mérito de programas como o de Francisco José Viegas e outros, é evidente que nem o problema do défice cultural (que implicaria também uma palavra mais forte do Ministério da Cultura na área do audiovisual) nem o problema da leitura se resolvem com um simples magazine semanal, emitido lá para as tantas, nem com micronotícias sobre a actividade editorial. Ao invés, e para dar só três exemplos, pode imaginar-se o êxito que teriam séries de programas sobre a Ilíada e a Odisseia, por Frederico Lourenço, sobre Os Lusíadas, por Amélia Pinto Pais, sobre Gil Vicente, por J. A. Cardoso Bernardes…, incitando à leitura a partir das aliciantes descobertas que poderiam proporcionar.
Os melhores recursos humanos e culturais da televisão deviam ser investidos com engenho e capacidade de sugestão numa acção continuada desse tipo, relegando-se o futebol para a uma ou as duas da manhã e passando a produzir-se, com a linguagem televisiva adequada, programas social e culturalmente úteis do ponto de vista específico e prioritário do Plano Nacional de Leitura, que ocupariam a vez dos concursos idiotas e da tralha imunda que é habitual ver-se nos melhores blocos horários.
Afinal, num país de nível cultural medíocre e de nível escolar desgraçado, num país que se preocupa tanto em proibir o tabaco que acabará por fazê-lo ao nível da próprias retretes, não haverá ninguém que se preocupe em disciplinar, ao menos, a poluição dos espíritos no espaço público, abrindo segmentos televisivos e radiofónicos frequentes e adequados para coisas mais saudáveis e, sobretudo, escolarmente mais produtivas já no médio prazo?"

2006/06/02

Plano Nacional de Leitura no "Público"

"Alunos da pré-primária e 1º ciclo vão ler uma hora por dia na aula

O Governo definiu um período exacto e obrigatório para as crianças lerem na sala de aula. O Plano Nacional de Leitura foi aprovado ontem em Conselho de Ministros e apresentado por três ministros. A leitura é uma "prioridade política". E "treina-se" - como nadar ou andar de bicicleta. Por Isabel Salema

No próximo ano lectivo, os alunos da pré-primária e do 1º ciclo vão passar a ler livros, todos os dias, durante uma hora, na sala de aula. Os mais velhos, do 2º ciclo, também vão ter um período obrigatório só para ler - uma vez por semana, 45 minutos.
São três propostas do Plano Nacional de Leitura, aprovado ontem em Conselho de Ministros, e segundo explicou a sua comissária, a escritora e professora Isabel Alçada, "é a sua parte de leão".
Por ser uma "prioridade política" e "desígnio nacional", o Plano Nacional de Leitura foi apresentado, em conferência de imprensa, na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, por três ministros: da Educação, da Cultura e dos Assuntos Parlamentares. A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, disse que é "ambição" do Governo que essa prioridade política "se torne prioridade de toda a sociedade portuguesa".
O plano "surge num encadeado já longo de medidas políticas, num esforço persistente do país", disse a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que tem a responsabilidade do plano em articulação com os outros dois ministérios. Em 2007, lembrou, a rede de bibliotecas municipais faz 20 anos e a rede de bibliotecas escolares tem 10. O plano quer "tirar partido destas infra-estruturas e acrescentar dinâmicas", continuou. Foi, aliás, pedido "pelas próprias pessoas que trabalham no terreno".
Porque é que ler na sala de aula é tão importante? Porque, sublinhou a ministra da Educação, "as competências em leitura são decisivas para o sucesso escolar" e têm de ser adquiridas "de forma segura". E daí, justificou, "o foco nas idades iniciais".

Leitura orientada
"Pedimos uma hora diária de leitura orientada, o que significa que as crianças tenham também um livro por onde sigam o professor. Um livro para cada um, ou um para cada dois", explicou Isabel Alçada, professora na Escola Superior de Educação e autora de livros infanto-juvenis (ver caixa). "Não é só ouvir ler. O professor assegura que o livro é mesmo lido, porque o faz na sala de aula", continua, acrescentando que no pré-escolar é importante que as crianças observem o livro, as ilustrações, mas também o texto.
Teresa Calçada, vice-comissária do plano e coordenadora do Gabinete da Rede das Bibliotecas Escolares, diz que foi feito "um trabalho fantástico" com a rede, que no final de 2006 deverá ter cerca de 1800 bibliotecas, mas é preciso dar o passo seguinte. "Assegurar que os livros entram no quotidiano da sala de aula", afirma Isabel Alçada, criando hábitos de leitura o mais cedo possível. "Porque a leitura treina-se, é performativa, é como nadar ou andar de bicicleta."
Segundo a ministra da Educação, nas próximas semanas, o Governo vai enviar às escolas orientações sobre a concretização do programa do 1º ciclo na sala de aula. Aí, estará integrada a hora diária dedicada à leitura, que aparecerá no tempo atribuído ao Português curricular. No caso do 2º ciclo, os 45 minutos aparecerão na disciplina de Português, disse Isabel Alçada.

Listas de 600 livros sai em breve
O site do plano, que deverá estar disponível daqui a um mês, vai pôr à disposição dos professores várias listas com cerca de 600 livros, organizadas por níveis de dificuldade, para os diferentes anos de escolaridade. Há 18 níveis entre o 1º e o 6º ano, com três por ano, e um nível para o pré-escolar. "São quase 600 livros e vão estar sempre a ser actualizados. É para estimular a progressão, para os professores terem um quadro e poderem escolher com apoio", diz Isabel Alçada. "Não vamos dar nenhuma receita", diz Teresa Calçada. "É um conjunto de possibilidades de trabalho. Vamos dar um quadro de referência que permita escolher e inventar", afirma Alçada.
Estes livros, dizem ambas, vão começar a ser fornecidos às escolas. "Há meios para equipar as escolas com livros para a leitura orientada", diz Teresa Alçada. Há também listas com sugestões para os pais, porque o plano quer chegar à família.
Maria de Lurdes Rodrigues esclareceu que na primeira fase de arranque do plano está previsto um investimento entre um e dois milhões de euros para as solicitações das escolas. "Precisávamos de muito mais, do triplo", disse a ministra que, juntamente com as comissárias, tem a expectativa de encontrar mecenas e patrocínios para o plano.
O plano tem várias outras medidas, tendo esclarecido a ministra da Cultura que no âmbito do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB) está previsto um reforço das acções de promoção da leitura, como o Programa de Itinerâncias Culturais que anima as bibliotecas públicas. Essa maior "densidade" vai significar um investimento de 400 mil euros em 2007.
José Manuel Cortez, que foi destacado do IPLB para trabalhar no plano, diz que um dos objectivos "é tentar estabelecer no terreno, com competências definidas, uma rede de promotores e animadores da leitura", em articulação com o Ministério da Educação.
A comissão do Plano Nacional de Leitura vai funcionar no Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, do Ministério da Educação. "A comissão coordena os serviços dos três ministérios", explica Isabel Alçada. Os serviços são o Gabinete da Rede das Bibliotecas Escolares, o IPLB e o Instituto da Comunicação Social. Nesta estrutura, além de Isabel Alçada, vão trabalhar Teresa Calçada (Rede de Bibliotecas Escolares), Teresa Gil, José Manuel Cortez, também do IPLB, e Alexandra Lorena, do Instituto de Comunicação.
O sonho desta equipa é que surjam em Portugal associações e ONG dedicadas à promoção da leitura. E deixam uma pergunta: porque é que os pais não se associam e compram vários livros iguais e os oferecem às escolas?

A "comissária da leitura"


A comissária do Plano Nacional de Leitura, Isabel Alçada, 56 anos, tornou-se conhecida do grande público através da colecção infanto-juvenil Uma Aventura, assinada em parceria com Ana Maria Magalhães, desde 1982 (48 títulos). Com um mestrado em Análise Social da Educação na Universidade de Boston (EUA), preparou o doutoramento na Universidade de Liège (Bélgica). Leccionou Português e História no 2.º ciclo do ensino básico (1975 a 1984) e participou activamente na Reforma do Ensino Secundário em 1975/76. É professora na Escola Superior de Educação de Lisboa. R.P.


A criadora da rede das bibliotecas escolares


Teresa Calçada, 53 anos, a vice-comissária do plano, é coordenadora do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares no Ministério da Educação, onde fica a funcionar a estrutura do Plano Nacional de Leitura. Foi convidada em 1996 para criar uma rede de bibliotecas escolares. Vinha da vice-presidência do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, onde fez parte do grupo de trabalho que levou à criação da rede de bibliotecas municipais. I.S.


22% dos alunos portugueses só dominam competências básicas da leitura

Os resultados globais não são tão maus quanto na Matemática, mas em relação à leitura são muitos os alunos portugueses de 15 anos que só têm o mais elementar nível de competências, concluiu a última edição (2003) do Programme for International Student Assessment (PISA), o maior estudo internacional sobre o desempenho educativo dos jovens, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e citado no relatório do Plano Nacional de Leitura apresentado ontem. Aplicados os testes, verificou-se que 22 por cento dos alunos fica pelo nível 1 (numa escala até 5), o que significa que esses estudantes não têm as capacidades mais básicas que o PISA quer medir ou se ficam pelas tarefas elementares, como reconhecer o tema principal do texto. O desempenho médio só não é pior por causa das raparigas. Quase 30 por cento dos rapazes não vão além do nível 1. Com as raparigas acontece com 15 por cento. Grécia, Itália e Espanha também têm resultados preocupantes. Isabel Leiria


Saramago diz que estímulo à leitura é "inútil"

Lusa

O prémio Nobel da Literatura José Saramago questionou a utilidade de o Estado estimular a leitura e disse que o "voluntarismo não vale a pena, é inútil" numa área que "sempre foi e será coisa de uma minoria", disse quarta-feira à noite num debate na Biblioteca Municipal de Oeiras. "Não vamos exigir a todo o mundo a paixão pela leitura." Saramago disse desconhecer o conteúdo do Plano Nacional de Leitura (PNL), de cuja comissão de honra faz parte (com mais 100 pessoas) por ser "uma fatalidade, como as bexigas", por causa do Nobel. Sobre o PNL disse apenas que "há dinheiro para gastar", mas resta "esperar para ver que resultados". "O estímulo à leitura é uma coisa estranha, não deveria ter que haver outro estímulo além da necessidade de um instrumento que permita conhecer." "Mal vão as coisas quando é preciso estimular", defendeu, contrapondo que "ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol". Ontem, a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, disse: "Discordo e acho que Saramago está a falar de um qualquer plano de leitura e não deste." Mais tarde, disse: "Estamos certos que [Saramago] vai colaborar."


Livros gratuitos para todos os bebés britânicos


Cerca de 90 por cento das crianças que nascem na Grã-Bretanha recebem hoje, gratuitamente, um conjunto de livros infantis. O programa Bookstart, iniciativa nacional da organização independente de solidariedade Booktrust, consiste em dar a cada bebé nascido no país livros que estimulem as suas capacidades de leitura e aprendizagem da língua e guias orientadores de leitura para os pais e tutores. O projecto, único no mundo, liga a família, as bibliotecas e os serviços de saúde: os livros são entregues na consulta dos 7-9 meses da criança, com informação sobre as actividades da biblioteca local. Além do primeiro conjunto de livros (Bookstart), a Booktrust tem outros programas: o Bookstart Plus, para crianças a partir dos 18 meses, o My Bookstart Treasure Chest, para crianças a partir dos 3 anos. O Bookstar Rhymetimes, organizado por maternidades e bibliotecas, cria jogos com rimas, música e ritmo. Para crianças cegas e com problemas de visão até aos 4 anos, esta organização de Londres criou o Booktouch, para criar uma ligação física com os livros. Este conjunto traz, além dos livros, informação sobre como incentivar a leitura nestas crianças. As actividades e distribuição dos livros são feitas localmente, com a colaboração da biblioteca e estruturas locais de educação e saúde. Inês Calado Saraiva"

2006/04/15

I Jornadas Hispano-Lusas "Libros y lectores para un nuevo milenio"

I Jornadas Hispano-Lusas "Libros y lectores para un nuevo milenio"

FACULTAD DE BIBLIOTECONOMÍA Y DOCUMENTACIÓN UNIVERSIDAD DE EXTREMADURA

BADAJOZ, 24 y 25 de ABRIL 2006

PATROCINA

CONSEJERÍA DE CULTURA DE LA JUNTA DE EXTREMADURA

DIPUTACIÓN DE BADAJOZ

BIBLIOTECA DE EXTREMADURA

COLABORAN:

ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE LECTURA Y ESCRITURA

CEPLI (CENTRO DE PROMOCIÓN DE LA LECTURA DE LA UNIVERSIDAD DE CASTILLA LA MANCHA)-

FUNDACIÓN GERMÁN SÁNCHEZ RUIPÉREZ

PROGRAMA CIENTÍFICO

A. PRESENTACIÓN

El objetivo principal de este curso es diseñar una serie de medidas de fomento que faciliten la consolidación de hábitos de lectura. Se trata de establecer programas que ayuden a lograr los niveles de lectura de calidad en las bibliotecas públicas, bibliotecas escolares y otros espacios de cultura. Para ello se reflexionará sobre los distintos aspectos que configuran los servicios y actuaciones de los centros mencionados a la luz de los cambios que están aconteciendo en nuestras sociedades. Y esto nos obligaría a reformular, al menos conceptualmente, la animación a la lectura como animación a la información, la promoción y desarrollo de los hábitos lectores como promoción en el uso autónomo de la información, ya sea para satisfacer inquietudes culturales, profesionales, formativas o por mera curiosidad recreativa.

Hay que subrayar, pues, la importancia de la formación del profesor/bibliotecario en técnicas de organización y uso de bibliotecas escolares, en animación a la lectura y en el conocimiento básico de la literatura infantil y juvenil. Por otro lado, es dentro del aula y la biblioteca escolar donde el niño o el joven aprende a leer, donde descubre la lectura y donde tiene la posibilidad de desarrollarla. También se verá la necesidad de que exista una estrecha colaboración entre las instituciones (bibliotecas, ludotecas....), las familias y los colectivos directamente o indirectamente interesados en el desarrollo y extensión de hábitos lectores con el fin de articular estrategias conjuntas. Esta implicación se hace imprescindible como fuente generadora de ideas y como canalizadores de esfuerzos mancomunados.

Con el fin de materializar los objetivos mencionados, se establece un plan de formación que favorezca el establecimiento de políticas específicas de animación o fomento de la lectura según las demandas y características sociales, culturales, educativas y económicas con las que se cuente en cada caso.

B. OBJETIVOS

1. Extraer criterios de utilidad para la selección de estrategias que provoquen un aumento del hábito lector, tanto en el ámbito educativo como en el bibliotecario.

2. Proponer soluciones o sugerencias para el correcto aprovechamiento de los recursos como herramientas para crear un hábito lector.

3. Subrayar la importancia de las TIC en las bibliotecas y la lectura, así como los nuevos papales que les está asignado la sociedad y sus repercusiones en la promoción, el fomento y la mejora de hábitos lectores de la población.

4. Fomentar el uso de la lectura recreativa apartándola de la estrecha óptica del aprendizaje, la instrumentalización y los controles para que así se pueda ir alimentando una afición lectora.

5. Estimular los procesos de comprensión y de curiosidad a través de la lectura mediante estímulos progresivos que hagan aumentar el nivel cultural y el nivel lector de las personas.

6. Crear estrategias que ayuden a los mediadores de lectura a orientar y conocer los gustos lectores para así provocar el cruce entre la lectura y los potenciales lectores.


C. BLOQUES DE CONTENIDOS

Día 24 de ABRIL

10,00 horas Conferencia inaugural: Excmo. Sr. Consejero de Cultura,

D. Francisco Muñoz Ramírez

12,00 Literatura infantil y mediación lectora. La biblioteca como ámbito de animación a la lectura”. Pedro CERRILLO. Catedrático de UCLM y director del CEPLI, Centro de Promoción de la Lectura y la Literatura Infantil.

13,00 Lecturas por edades, Santiago YUBERO, Profesor Titular UCLM, CEPLI, Centro de Promoción de la Lectura y la Literatura Infantil.

TARDE

16,00 Literatura, lenguaje e infancia. Dr. Fernando FRAGA DE AZEVEDO, Instituto de Estudos da Criança, Universidad do Minho.

18, 00 Presentación de la Revista Puertas a la Lectura Monográfico “Lectura y Medios de Comunicación: Dª Inmaculada BONILLA, Diputada Cultura Diputación Badajoz, D. Agustín Vivas, Coordinador Monográfico, D. Eloy MARTOS, Director de la Revista.

19,30 Taller de Lectura y Escritura Dª Beatriz Osés, Profesora IES y Premio Giner de los Ríos.

DÍA 25 DE ABRIL

10,00 horas La investigación científica: investigar para leer. Leer para investigar. Dr. José López Yepes, Catedrático Univ. Complutense.

12,00 La biblioteca infantil y juvenil como espacio de promoción de lectura y dinamización cultural. Dr. Luis M. Cencerrado Coordinador del Centro de Documentación. Centro Internacional del Libro Infantil y Juvenil. Fundación Germán Sánchez Ruipérez.

13, 30 Mesa redonda: El fomento de la lectura: situación y perspectivas Dª Estela D´Angelo, Presidenta de AELE; D. Luis Sáez Delgado, Coordinador Plan Fomento de la Lectura - Consejería de Cultura; D. Justo Vila, Director Biblioteca de Extremadura; Dª Maria do Sameiro PEDRO, Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja; Coordina: D. Ángel Suárez, Seminario de Lectura UEx.

D. ACTIVIDADES PARALELAS

EXPOSICIÓN INTERACTIVA E ITINERANTE DE POEMAS FOTOGRAFIADOS, AELE

Contenidos: véase http://www.asociacionaele.org/aele/inicio.php?menu=5

PRESENTACION DEL LIBRO “LOS HIJOS DEL DRAGÓN”, LUCÍA GONZÁLEZ


COORDINACIÓN DE LAS JORNADAS

Dr. D. Agustín Vivas, Facultad de Biblioteconomía y Documentación

Dr. D. Eloy Martos Núñez, Facultad de Biblioteconomía y Documentación

COMITÉ ORGANIZADOR

Dr. Pedro L. Lorenzo Cadalso, Prof. Titular Universidad y Decano Facultad de Biblioteconomía

Dr. D. Agustín Vivas, Prof. Titular Univ. y Vicedecano, Facultad de Biblioteconomía y Documentación

Dr. D. Eloy Martos Núñez, Catedrático E.U. Didáctica Lengua y Literatura, Facultad de Biblioteconomía y Documentación

Dr.D. Antonio Muñoz Cañabate Vera, Prof. Titular Univ. y Vicedecano Facultad de Biblioteconomía y Documentación

COMITÉ CIENTÍFICO

Dr. D. José López Yepes, Catedrático Univ. Complutense

Dr. D. Pedro CERRILLO, Catedrático Didáctica de la Lengua de la UCLM y director CEPLI

Dra. Estela D´Angelo, Presidenta de AELE, Universidad Complutense

Dr. D. Ángel Suárez Muñoz, Prof. Titular Universidad de Extremadura

Dr. Fernando FRAGA DE AZEVEDO, Instituto de Estudos da Criança, Universidad do Minho

Dr. L.M. CENCERRADO MALMIERCA , Coordinador del Centro de Documentación e Investigación de Literatura Infantil y Juvenil, Fundación Germán Sánchez Ruipérez

Dª Maria do Sameiro Pedro, Prof. Adjunta da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja­ – Portugal­.

2006/03/31

"Pijama às Letras" na Biblioteca Municipal de Carnaxide

Jantar de Contos de Fadas
Ementa

  • Creme de Ervilhas

Era uma vez um príncipe que queria casar com uma princesa. Mas não podia ser uma princesa qualquer! Não! Tinha que ser uma princesa digna de um conto de fadas! E para isso o príncipe correu o mundo em busca da princesa perfeita, mas acabou por voltar para casa, triste, e sem a ter encontrado.

Até que um dia, no meio de uma valente tempestade, alguém bateu à porta do palácio. Curiosa, a velha rainha foi logo ver quem era, e encontrou, para seu grande espanto, uma jovem que dizia ser uma princesa que se tinha perdido na floresta. As suas roupas estavam rasgadas, escorria água dos seus longos cabelos e os sapatos estavam ensopados. Nenhuma princesa verdadeira se apresentaria no palácio daquela forma!

Mas a rainha, que era mais esperta, resolveu fazer-lhe um teste. Convidou-a a passar a noite no palácio, e foi ela mesma preparar-lhe o quarto onde se deitaria. Tirou então toda a roupa que estava na cama, levantou o colchão, e por baixo dele colocou uma pequena ervilha. Depois juntou vinte colchões e mais vinte edredões, e colocou tudo por cima da cama. Seria aí que a princesa iria passar a noite.

Na manhã seguinte, assim que acordou, todos lhe perguntaram como tinha dormido.

- Oh, muito mal – respondeu ela – Não preguei olho a noite toda! Havia algo na minha cama que me magoou as costas e que não me deixou dormir! Foi uma noite terrível!

Assim que se ouviram estas palavras, todos tiveram a certeza de que estavam perante uma autêntica princesa, pois só uma princesa verdadeira poderia ser tão sensível a ponto de sentir uma pequena ervilha por baixo de tantos colchões. O príncipe pediu-a logo em casamento e foram muito felizes. Diz-se que a história é verdadeira, e para quem dúvidas, a ervilha ainda está guardada para poder ser vista por quem não acreditar.

(adaptado de ‘A Princesa e a Ervilha’, de H.C.Andersen)


  • Sanduíches dinamarquesas

( de frango, delícias do mar, queijo e fiambre, e presunto)

Num país muito distante, andava uma menina a passear sobre um manto de neve, quando lhe apareceu uma gralha que falava a língua das pessoas.

- Bom dia - disse-lhe ela - que fazes por aqui sozinha?

E a menina a princípio assustou-se, mas depois resolveu contar-lhe que andava à procura do seu amigo que tinha desaparecido e de quem tinha muitas saudades. A gralha respondeu-lhe que tinha visto um menino que era novo naquela terra e que podia talvez ser quem ela procurava. Os dois ficaram amigos e resolveram ir juntos até ao palácio, onde o menino tinha sido visto pela última vez. Pelo caminho a menina perguntou:

- Então mas o que está o meu amiguinho a fazer no palácio? Ele não é um príncipe!

Ao que a gralha respondeu:

- Pois não, mas uma história há que explica tudo. Vou contar-te:

Neste reino onde estamos agora, existe uma princesa que é muito inteligente e quando se decidiu a casar, fez questão de encontrar um pretendente que fosse tão inteligente quanto ela. Mandou então espalhar a palavra, que todos os jovens de boa aparência se poderiam apresentar no palácio, para que ela pudesse escolher o mais inteligente entre eles. Vieram muitos! Faziam fila aos portões do palácio! Tinham fome e tinham sede, e os mais espertos tinham trazido pequenas sanduíches dinamarquesas que não partilhavam com ninguém. Estavam muito entusiasmados mas assim que viam a princesa ficavam envergonhados e não conseguiam dizer nada! Foi então no terceiro dia que apareceu um menino, simples e de roupas pobres, que desejava apenas ouvir a princesa, sem se tornar um pretendente. Quando se encontraram a conversa resultou tão bem, que o menino acabou por ficar no palácio!

- Oh, deve mesmo ser o meu amigo, pois ele é muito inteligente! – disse a menina.

Nesse preciso instante, chegaram ambos ao palácio. A gralha entrou primeiro e de seguida arranjou maneira de a menina entrar também. Lá dentro ela procurou o seu amigo, com cuidado para não ser vista por ninguém. Por fim chegou ao quarto onde dormia a princesa e o menino de que a gralha lhe tinha falado. Aproximou-se pé ante pé, com muito jeitinho e sem fazer barulho, mas quando já estava bem perto notou que não o conhecia. Começou a chorar de tristeza e o menino acordou com o som do seu choro, revelando-se um bonito e educado príncipe. A menina contou-lhe a sua história e o príncipe teve tanta pena dela que a deixou passar a noite no palácio. No dia seguinte pela manhã, arranjou-lhe uma boa carruagem, deu-lhe roupas novas e comida e acompanhou a menina até aos portões. Ficou a acenar-lhe até a perder de vista, enquanto ela seguia caminho sem desistir, sempre com esperança de um dia encontrar o seu amigo.

(adaptado de ‘A Rainha da Neve’, Quarta história – o príncipe e a princesa, de H.C.Andersen)

  • Bolo de Maçã

Cada chave tem a sua história. Mas esta que contamos aqui, tem uma história muito especial. Era a chave da porta do Conselheiro da Câmara, e tinha o poder especial de conseguir responder a qualquer pergunta com toda a verdade. Bastava pousá-la sobre a mão, colocar-lhe uma questão, e a chave começava a girar, cada volta significando uma letra do abecedário, até formar palavras e responder ao que se lhe perguntava. Era verdadeiramente uma chave mágica!

O Conselheiro fascinado com os poderes da sua chave, fazia-lhe todo o tipo de perguntas e anotava todas as respostas num pequeno caderno que mantinha para esse efeito. E a chave falava sempre a verdade.

Uma vez, na mesma noite em que o namorado da criada a tinha vindo visitar, desapareceu do armário da cozinha meio bolo de maçã. O Conselheiro perguntou quem o tinha tirado mas ninguém se queria acusar. Pegou então na chave e perguntou-lhe:

- Quem tirou o bolo de maçã do armário? O gato ou o namorado?

A chave da porta respondeu que tinha sido o namorado e a criada não teve outra hipótese senão admitir o roubo e confessar a verdade. Então e não é que aquela chave sabia mesmo tudo?

(adaptado de ‘A Chave da Porta’, de H.C.Andersen)

Nota: Inspirado no livro Receitas de Contos de Fadas de Hans Christian Andersen, editora 101 Noites

2006/01/07

"Novos talentos no infanto-juvenil"

"Alexandre Parafita

Alexandre Parafita é investigador de literatura oral, professor e autor de mais de 30 obras, sendo as mais recentes: "Chovia Ouro no Bosque" (Porto Editora), "Branca-Flor, o Príncipe e o Demónio" (Asa), "Histórias de Arte e Manhas" (Texto Editores), "O Conselheiro do Rei" (Impala), editado também em castelhano, e "Contos de Animais com Manhas de Gente" (Âmbar).
De 2005, retém como positivo "o despontar de alguns autores jovens, bastante promissores, seja ao nível da narração escrita, seja ao nível da ilustração, e que certamente garantirão a sobrevivência de uma literatura infanto-juvenil de qualidade no futuro".
O primeiro título escolhido foi "A Rosinha, o Mar e os Sonhos" (Gailivro) de Rosário Alçada Araújo (escrita) e Catarina França (ilustração), "pela sintonia estética que partilham". Na obra, "de enredo encantatório, atravessado pela aventura e pelo mistério do mar e dos tesouros, ecoam, inteligentemente, as reminiscências dos velhos contos de fadas, onde não falta o perfil de uma "Branca-Flor" reinventada em cada uma das personagens femininas da história".
Alexandre Parafita acrescenta ainda: "Para a criança que vive na fase de se apropriar de modelos, de distinguir de "motu proprio" as dicotomias essenciais com que a vida a confronta, tais como o bem e o mal, a fidelidade e a hipocrisia, a coragem e a cobardia, este livro é, sem dúvida, um amigo valioso. Valioso pela natureza das mensagens que segreda ao inconsciente do pequeno leitor."
Em conjunto, autora e ilustradora assinaram também "Somos Diferentes" (Impala) e "A História de Uma Pequena Estrela" (Gailivro).
Para um nível etário um pouco mais elevado, o autor destaca "Eldest" (2.º volume da Trilogia da Herança), de Christopher Paolini. "Todo o livro conduz a uma hábil e descomplexada incursão pelo mundo do fantástico, à semelhança do que vimos com as sagas de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis. A particularidade de ser um autor muito jovem (19 anos) a dar vida e coerência a um enredo complexo, mas sedutor, onde abundam seres insólitos como dragões, elfos, anões, serpentes, espectros, feiticeiras e outros estereótipos do fantástico, torna este livro particularmente interessante para um público jovem. Um público facilmente atraído por narrativas onde impera a perspectiva mitológica do herói, envolvido num jogo permanente de intimidações, que vai superando em actos sucessivos de transgressão responsável."
Também para estas idades, Parafita escolhe "Fábulas de Bocage", de José Jorge Letria (texto da Introdução) e André Letria (ilustração), "uma edição com muita dignidade, que, ao mesmo tempo, comemora os 200 anos da morte do grande poeta setubalense". Destaca ainda esta obra "pelo muito que ela contribui para reerguer, aos olhos dos mais jovens, uma das mais belas facetas de um poeta que, no imaginário colectivo, ficou gravado pela sua vida boémia e errante. Nestes "versos com moral" de Bocage, cuidadosamente seleccionados e enquadrados por José Jorge Letria, e magnificamente ilustrados por André Letria, ecoa uma consciência crítica que não se esgotou no tempo e que, por vezes, foi trazida na voz de animais para melhor chegar aos humanos".


A Rosinha, o Mar e os Sonhos
Autor Rosário Alçada Araújo
Ilustrador Catarina França
Editor Gailivro
36 págs., 8,90 euros

Eldest
Autor Christopher Paolini
Tradutores Andrea Alves Silva e Vera Falcão Martins
Editor Gailivro
814 págs., 19,90 euros

Fábulas de Bocage
Autor da Introdução José Jorge Letria
Ilustrador André Letria
Editor Âmbar
42 págs., 17,85 euros


Marta Torrão

Marta Torrão é ilustradora e venceu o Prémio Nacional de Ilustração relativo a 2004 com o livro "Come a Sopa, Marta!" (Bichinho de Conto), atribuído por unanimidade pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pela Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil. Normalmente usa técnica mista nos seus trabalhos (guache e colagens) e também ilustra para a imprensa, numa colaboração semanal com a revista "Notícias Magazine".
O primeiro livro que escolheu foi "O Quê Que Quem", do ilustrador Gémeo Luís e com textos de Eugénio Roda (Edições Eterogémeas). "Seleccionei este livro pela originalidade da técnica, corte no papel, mas também pelas magníficas ilustrações que dela resultaram. Ricas em pormenores poéticos, deixando por definir onde começam e onde acabam, criando imagens dentro de uma única imagem. Uma espécie de jogo onde com toda a atenção se descobrem elementos que vivem para lá do texto." É um livro bilingue (português e inglês), com o interessante subtítulo "Notas de rodapé e de corrimão".
A segunda obra seleccionada foi "A Máquina Infernal", do ilustrador e desta vez também autor Alain Corbel. "Alain associou a sua representação da realidade ao imaginário inocente de um menino, chamado Tim. O resultado são elementos verdadeiramente surpreendentes, como quando Tim percebe que a sua máquina infernal se pode transformar em algo bom e mágico aos olhos de uma outra criança, neste caso uma menina, e que o mesmo pode acontecer com as palavras."
Marta Torrão considera ainda que há "detalhes harmoniosos presentes em pequenas coisas, como o vestido da personagem, que remete para a renovação e nascimento. Uma bonita união entre a escrita e o desenho".
Por último, elege "Uma Estrela", ilustrado por Cristina Valadas e escrito por Manuel Alegre. "Escolhi este livro pela quase ausência de cores nas ilustrações, o que é bastante curioso, principalmente por ser uma obra que aborda o tema do Natal e por estarmos habituados aos livros cheios de cores. Neste caso é diferente e o facto de a ilustradora nos dar uma nova perspectiva do Natal ganha pela diferença, criando um universo de figuras simples, mas cheias de encanto."


O Quê Que Quem/ Notas de Rodapé e de Corrimão
Autor Eugénio Roda
Tradução para Inglês Ana Saldanha
Ilustrador Gémeo Luís
Editor Edições Eterogémeas
22 págs., 9 euros

A Máquina Infernal
Autor e ilustrador Alain Corbel
Editor Caminho
32 págs., 12,60 euros

Uma Estrela
Autor Manuel Alegre
Ilustrador Cristina Valadas
Editor Dom Quixote
28 págs., 13,30 euros"

Ilse Losa morreu

Pelo seu manifesto interesse pedagógico, reproduzo o texto que o jornal Público edita hoje nas suas páginas:

"
Ilse Losa (1913-2006) Uma escritora entre dois mundos

Morreu ontem, aos 92 anos, a escritora portuguesa de ascendência alemã Ilse Losa, um dos nomes mais significativos da nossa literatura juvenil, mas cuja obra se estende ao romance, ao conto e à crónica. Vivia no Porto desde 1934, ano em que chegou a Portugal, fugindo da ascensão nazi. Por Luís Miguel Queirós

Embora existam precedentes célebres, não é nada vulgar que alguém consiga tornar-se um autor de reconhecida relevância numa língua com a qual só contactou já na idade adulta. É esse o caso de Ilse Losa, que poucas palavras conheceria em português quando a sua condição de judia a obrigou a deixar a Alemanha e a procurar refúgio no Porto, onde desembarcou em 1934, aos 21 anos.
Do tempo que viveu no seu país natal, desde a infância passada com os avós numa aldeia próxima de Osnabrück até à sua fuga de uma Alemanha que acabara de levar os nazis ao poder, deixou-nos um notável testemunho no seu romance de estreia, O Mundo em que Vivi, escrito já directamente em português e publicado em 1949. Ficção fortemente autobiográfica, o livro conta a história de uma rapariga judia, Rose Frankfurter - loura e de olhos azuis, tal como Ilse Losa -, que escapa in extremis ao horror dos campos de concentração.
Foi também literalmente no último momento que Ilse Lieblich (o seu apelido de solteira) abandonou a Alemanha. A Gestapo tivera acesso a uma carta em que Ilse criticava Hitler e, após um duro interrogatório, ordenou-lhe que voltasse a apresentar-se seis dias mais tarde. Se tivesse comparecido, o campo de concentração era o destino mais do que provável. Ilse fugiu nesse intervalo. O seu irmão mais velho já vivia no Porto, e o mais novo chegaria pouco depois dela.
Em 1935, casou-se com Arménio Losa (1908-1988), um dos mais relevantes arquitectos modernistas portugueses, e adquiriu a nacionalidade portuguesa.
Óscar Lopes foi um dos primeiros a reconhecer a importância do romance de estreia de Ilse Losa, sublinhando, em O Mundo em que Vivi, a vivacidade do retrato da sociedade alemã nos anos que vão do final da Primeira Guerra até à vitória dos nazis, mas elogiando, também, a sua "escrita inexcedivelmente sóbria e transparente".
No mesmo ano de 1949, Ilse Losa publica Faísca Conta a Sua História, a primeira das cerca de duas dezenas de narrativas e peças de teatro que escreveu para crianças. Em 1982, recebe um prémio da Gulbenkian pelo livro Na Quinta das Cerejeiras, e a mesma fundação atribui-lhe, dois anos mais tarde, desta vez pelo conjunto da sua obra, o Grande Prémio de Literatura para Crianças.
Segundo José António Gomes, professor e crítico de literatura infantil, "Ilse Losa introduziu o realismo na literatura para crianças em Portugal". Num depoimento ontem prestado ao PÚBLICO, recorda ainda que a autora foi pioneira na atenção aos temas ambientais, no livro Beatriz e o Plátano (1976), e recorda "a magnífica parábola sobre a perseguição dos judeus" que constitui o conto Silka, premiado em 1989 pela Bienal de Bratislava, que atribuiu a Maçã de Ouro ao trabalho de Manuela Bacelar, ilustradora de várias obras da escritora. "A Ilse é uma referência no meu trabalho e na minha vida, e lamento muito o seu desaparecimento e o facto de ter sido tão esquecida", disse ao PÚBLICO Manuela Bacelar.
Para José Jorge Letria, Ilse Losa "libertou a literatura para a infância do estigma de uma literatura menor". E Luísa Dacosta realça o facto de a autora se ter "aventurado a escrever em português, o que talvez a fizesse sentir-se uma estrangeira mesmo na língua".
Estrangeira sentiu-se seguramente nesse Portugal salazarista dos anos 30, que descreve no romance Sob Céus Estranhos (1962), cujo protagonista é um judeu alemão refugiado no Porto e que nos dá um magnífico retrato da provinciana "pasmaceira" (termo que o próprio herói do livro utiliza) que era a cidade no final dos anos 40.
Entre as muitas obras de Ilse Losa, podem destacar-se o romance Rio Sem Ponte (1952), ou as narrativas de Aqui Havia Uma Casa (1955), O Barco Afundado (1979) e Caminhos Sem Destino (1991). Ou ainda o livro de crónicas de viagem Ida e Volta. À Procura de Babbitt (1960). Colaboradora de muitos jornais e revistas, Ilse Losa foi também cronista do PÚBLICO, onde manteve uma coluna mensal, desde o lançamento do jornal, em 1990, até finais de 1992.
Além da sua própria obra, Ilse Losa deixa-nos um conjunto de importantes traduções, quer de autores alemães, como Brecht, Erich Kästner, Max Frisch ou Anna Seghers, quer de escritores portugueses que traduziu para a sua língua natal. Com Óscar Lopes, organizou uma antologia da moderna lírica portuguesa, editada em Berlim em 1969. É ainda dela a tradução portuguesa do célebre Diário de Anne Frank.
Apesar de haver decerto alguma verdade no lamento de Manuela Bacelar, Ilse Losa não está assim tão esquecida. A publicação, em 1990, da tradução alemã de O Mundo em que Vivi despertou um grande interesse pela sua obra na Alemanha, cujo Governo a condecorou em 1991 - Portugal outorgou-lhe em 1995 a Ordem do Infante D. Henrique -, e também no seu país de acolhimento não faltam estudos sobre a sua obra, ainda que geralmente limitados a artigos de jornal, ensaios dispersos por obras colectivas ou entradas de dicionários. Um bom ponto de partida é o livro Paisagens da Memória - Identidade e Alteridade na Escrita de Ilse Losa (2001), de Ana Isabel Marques, publicado em 2001, que, além da estimulante leitura que faz da obra de Ilse Losa, inclui uma bibliografia exaustiva dos textos dedicados à autora.
O funeral é hoje, pelas 10h30, no cemitério portuense do Prado do Repouso. com Rita Pimenta"

2005/12/18

Nova edição de Aquilino

"Autor de obras como Jardim das Tormentas (1913), Terras do Demo (1919), Cinco Réis de Gente (1948) ou Quando os Lobos Uivam (1959), foi com Romance da Raposa (1924) que Aquilino Ribeiro ganhou notoriedade junto do público juvenil. A Bertrand Editora recuperou as ilustrações originais de Benjamin Rabier para uma nova edição do romance, mas desta vez os desenhos surgem a cores, de onde se realça o verde do bosque frondoso onde Salta-Pocinhas vive as suas aventuras. A linguagem, essa, é a mesma de sempre com expressões que não cedem com o tempo. Exemplo? "Quem não trabuca não manduca." Preço de capa 25 euros."

"Da fábula de Aquilino Ribeiro ao testemunho crítico medieval"

Ainda citando o Diário de Notícias: ""Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - corria os bosques, farejando, batendo ma-to, sem conseguir deitar a unha a outra caça além duns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado." É desta forma sugestiva que o escritor português Aquilino Ribeiro inicia a sua versão de O Romance da Raposa (edição da Bertrand), clássico juvenil que se encontra editado com ilustrações de Benjamin Rabier. E é no registo da fábula bucólica descomprometida, aligeirada por diálogos típicos da Beira Alta natal (o escritor nasceu na aldeia de Carregal, em 1895) que a obra fez história a partir da misteriosa raposa, nascida e criada vários séculos antes desta publicação.

Tal como o percurso sinuoso da raposa Salta-Pocinhas pelo bosque, a origem desta história não é consensual, mas sabe-se que a personagem surgiu entre os séculos XII e XIII e é um dos primeiros exemplos de uma figura reincidente nos contos de tradição oral que transitou para as páginas dos primeiros livros populares na Idade Medieval. Le Roman de Renart (título original de O Romance da Raposa) não apareceu primeiro como prosa literária compilada por um escritor célebre. Foi antes produto de múltiplos versos octossilábicos que monges copistas produziram como forma de usar o comportamento arisco de animais para, daí, dar lições de moral e bons costumes a um povo analfabeto a essência da fábula.

O estilo algo superficial dos manuscritos encontrados (quase sempre com direito a ilustrações) descreve Salta-Pocinhas como um herói marginal e mais esperto que as restantes personagens animais - as mais conhecidas são Tibert, o gato, Noble, o leão, e Isengrip, o lobo. Os episódios, inspirados na obra Fábulas de Esopo, revelam cruzadas, ataques a castelos e desrespeito pela autoridade.

Segundo o ensaio A Novela da Idade Média, da autoria do professor catedrático brasileiro Ricardo Costa, a história de O Romance da Raposa, tal como da maioria das fábulas da época, tinha funções sociais relevantes e um carácter disciplinar. Além de ajudar a reconhecer o papel divino, o conto levava o leitor (ou, na maior parte dos casos, o ouvinte) a "unir-se às virtudes e a odiar os vícios", confrontar "opiniões erróneas", questionar a ordem e satirizar o dia-a-dia. Ainda segundo Ricardo Costa, "a utopia medieval fornecia um caminho para se chegar à perfeição", no entanto, "o importante não era saber se o andarilho chegaria a realizar o seu modelo utópico no fim da caminhada e sim tentar trilhar sempre o caminho escolhido".

E é isso que tanto o Salta-Pocinhas da obra de Aquilino Ribeiro como o Reinaldo do filme de animação que hoje chega às salas nacionais procuram fazer usar as artimanhas e a astúcia de uma raposa para procurar subir na vida.

No filme de Thierry Schiel, o protagonista tem, em particular, um bom coração, característica que justifica a sua ousadia e facilita o processo de identificação com os jovens espectadores ao qual o filme se destina. Mas, cerca de oito séculos depois, a essência das per- sonagens e das situações caricatas mantém-se. Tal como as histórias que ainda se contam sobre a raposa, matreira, e o lobo, ingénuo."

"Os esquimós de Vieira em viagem pelas estrelas"

Reproduzo do Diário de Notícias de 12 de Dezembro:



Edição

Os esquimós de Vieira em viagem pelas estrelas

'Kô e Kó, Os Dois Esquimós', ilustrado por Vieira da Silva, sai agora em Portugal

"É uma cabana de dois esquimós à procura do sol, viagem fantástica e interior na cauda de duas estrelas que descem suavemente sobre eles, como "dois elevadores dourados" com a luz virada de avesso. É também um livro para crianças, que se abre como um cenário de teatro, intitulado Kô e Kó, os Dois Esquimós. Com texto de Pierre Gueguen, conta com ilustrações de Vieira da Silva e acaba de ser publicado numa belíssima edição da Gótica com Michel Chandeigne. A tradução é de Joana Cabral.

Os mesmos desenhos da pintora, mestre na desmultiplicação do espaço e na sua fragmentação, estiveram expostos em Lisboa, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em 2001, lado a lado com a ilustração de Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, incluída num livro oferecido a Violante Canto da Maya, filha do escultor.

Kô e Kó surgem, em 1933, numa série de guaches de Vieira realizados para 14 páginas. O livro, publicado em França pela galerista Jeanne Bucher, numa tiragem de 300 exemplares - dos quais 12 eram acompanhados, cada um, de um original, assinados e numerados -, integra duas pranchas com desenhos das personagens para o leitor recortar e poder montar.

Não será o pior método, este o de chegar a Vieira pelo lado dos livros que a pintora portuguesa, um dos nomes mais relevantes da Escola de Paris e do abstraccionismo lírico, ilustrou. Nesta sua faceta menos conhecida, detecta- -se o traço, a matéria visual, o processo de escrita. É ainda evidente uma poética do espaço e a explosão rítmica de formas e emoções.

Depois da guerra, Vieira da Silva participará no projecto Caderno de Juventude e "comentará" Zadig, de Voltaire, L'Oiseau Bleu, de Maeterlinck, ou Médico à Força, de Molière. Neste Kô e Kó, as árvores são, afinal, meninas com braços brancos, a terra parece um prato de farófias e as focas assustam os dois esquimós. A mão de Vieira dança, entretanto, por entre as letras como um anjo."