DESIGUAL. As vicissitudes de produção deixaram marcas visíveis em The Brothers Grimm. O filme pedia várias tesouradas, dispersa-se muito, tem demasiadas sequências no limite do frenético, algumas personagens caricaturais em excesso (até mesmo ridículas, como o general francês de Jonathan Pryce) e nem sempre encontra o tom certo entre a comédia slapstick e o terror, embora esta palha hollywoodesca deva ser mais culpa do argumento de Ehren Kruger do que do realizador. Em compensação, e tal como já havia feito em Brazil e A Fantástica Aventura do Barão, Gilliam constrói um novo ambiente fantástico "orgânico", que parece ter existência própria, em vez de ser mais uma sofisticada colagem de adereços e efeitos digitais uma floresta encantada.
É neste bosque mágico, dominado pela torre da rainha má morta de peste há muitos séculos, percorrido por um lobisomem e assombrado por árvores vivas, insectos repelentes e corvos hostis, que Terry Gilliam puxa pelos seus galões cinematográficos e instala uma atmosfera de conto de fadas de cortar à faca. The Brothers Grimm, aliás, tem cosidas citações a vários contos de fadas, desde O Capuchinho Vermelho a Hensel e Gretel, mas de forma a contribuírem para o enredo, para adensarem uma sequência de terror (como a do Homem de Gengibre feito de lama e com olhos humanos) ou darem impacto visual, e não apenas para lá estarem penduradas e mostrarem que o argumentista e o realizador sabem do que estão a falar.
TERROR. Terry Gilliam explicou na conferência de imprensa que pretendeu, em The Brothers Grimm, recriar a "escala humana dos contos de fadas, que são protagonizados por pessoas reais, em vez de tentar criar por computador o edifico mais alto de todos ou o monstro mais assustador", e conseguiu o que desejava. Tal como conseguiu que o filme recordasse ao espectador que os contos de fadas tendência irmãos Grimm têm uma forte componente de terror. Os melhores momentos de The Brothers Grimm são precisamente os que estão mais colados à realidade arrepiante e sangrenta daquelas histórias, como o do cavalo que engole a criança no estábulo depois de a prender numa teia que lhe saiu da boca, ou as sequências em que a rainha ainda está mumificada no leito mas já regressou ao seu esplendor sensual na reflexão do espelho (o lobisomem, esse, é francamente banal e obviamente digital).
Um filme como este não é feito para que os seus actores brilhem, e a verdade é que alguns deles são prejudicados pelas personagens, como o torcionário italiano de opereta rasca que saiu na rifa a Peter Stormare. Dos dois irmãos Grimm, Heath Ledger dá muito mais nas vistas do que Matt Damon, não só porque o pentearam melhor, mas também porque se deu ao trabalho de arranjar um sotaque (muito Monty Python) para a personagem. Monica Bellucci não podia ter sido mais bem escolhida para fazer a rainha, sugerindo no tom exacto todo o poder maléfico oculto sob a sua beleza sobrenatural. Não admira que faça sangrar, literalmente, o coração de qualquer homem que se chegue a ela. [...]"