Roald Dahl era um respeitável senhor britânico que escrevia livros infantis em que as crianças maltratadas ou desprezadas por adultos acabavam por os castigar, não sem antes terem andado a correr mundo em frutas descomunais (James e o Pêssego Gigante) depois de os pais serem atropelados por rinocerontes, sido transformadas em ratinhos brancos por bruxas (As Bruxas) ou frequentado escolas de pesadelo (Matilde).
Irmãos em imaginação desmesurada e insólita, em humor negro e em alergia ao mundo quotidiano, banal e feio que trata mal as pessoas especiais, Burton e Dahl encontraram-se os dois à esquina (em espírito, claro) quando o primeiro produziu, em 1996, a animação James e o Pêssego Gigante, de Henry Selick.
Agora, Tim Burton revisita Roald Dahl em James e a Fábrica de Chocolate, adaptação de um dos mais bem-amados livros do escritor, já filmado por Mel Stuart em 1971. Mas entre esta versão e a de Burton, vai a distância entre uma pastilha elástica albanesa e uma tablete de chocolate suíço.
Burton pegou na história de Dahl e, respeitando-a quase na íntegra, afeiçoou-a à sua weirdness gótico-poético-enviesada. O pequeno Charlie Bucket (Freddie Highmore, de Em Busca da Terra do Nunca) é sossegado e muito bem-educado. Vive com a família numa casa construída pelo arquitecto do Dr. Caligari num dia em que bebeu de mais, numa cidade industrial saída de um livro de Charles Dickens, com a mãe, o pai e os quatro avós, que nunca saem da cama. A família Bucket é tão pobre que o jantar é sempre sopa de couve (nunca há almoço). A cidade é dominada pela estrutura da fábrica de chocolates Wonka, os melhores do mundo, propriedade do invisível e recluso Willie Wonka.
Um dia, Wonka faz saber que pôs cinco "bilhetes dourados" em cinco tabletes. As crianças que os acharem ganham uma visita guiada à fábrica. Quatro vão parar às mãos de outros tantos pequenos monstros um glutão, uma gananciosa, uma hipercompetitiva e um junkie de TV e jogos de vídeo. O quinto é descoberto por Charlie. E uma manhã, as cinco crianças, cada uma acompanhada por um parente, são recebidas pessoalmente por Willie Wonka.
Tim Burton realiza Charlie e a Fábrica de Chocolate como se fosse uma combinação de guloseima cinematográfica psicadélica para os olhos lamberem até se fartarem, de jornada por um mundo secreto, fantástico e nonsense, e de conto moral tradicional satírico, em que as crianças mal-educadas são elaboradamente humilhadas e castigadas, e as bonzinhas vastamente recompensadas. Cada criança tem direito a uma canção-tema, com as letras originais de Dahl, músicas spaced out de Danny Elfman e coreografias cinéfilo-pop/rock de Burton. (Não, garanto que não comi nenhum chocolate com comprimidos esquisitos misturados.)
A cereja bizarra no topo deste bolo é Willie Wonka, que Johnny Depp interpreta como um travesti de Audrey Tautou com o penteado do falecido Rolling Stone Brian Jones, o guarda-roupa de Austin Powers e os modos de Michael Jackson, menos os impulsos pedófilos; e servido por um exército de Oompa-Loompas, os anões que fazem tudo na fábrica, vividos pelo diminuto actor indiano Deep Roy mil vezes multiplicado por computador.
A única fuga grave de Tim Burton à letra do livro é uma explicação inventada para a paixão chocolateira de Wonka o pai era um dentista antidoces. O escritor teria perdoado a liberdade ao realizador, se soubesse que o pai severo é interpretado pelo magnífico Christopher Lee como um conde Dooku da odontologia." (Eurico de Barros)